quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

ABERTO PARA BALANÇO

Houve um tempo em que era quase que uma obrigação, a cada 365 dias corridos, sentar-me em local distante, de preferência aqueles em que o que nos cerca é o sossego, e fazer um balanço geral do ano que se passou.
Há tempos não me atenho a essa prática; anos vem e vão e eu indo e vindo junto, sem tempo, razão e nem vontade de ficar fazendo avaliações do que foi bom ou ruim no período compreendido entre a ressaca do Reveillon e a nova chegada de Papai Noel.
Hoje é quase 2009 e eu quase 50, então pensei em preencher mais uma branca folha com reminiscências dos mais de trezentos dias vividos em 2008.
Que critérios usar para a seleção de bom ou ruim, já que, segundo dito popular, tudo o que é escuro tem um lado claro ou tudo o que é leve pode vir a ganhar peso.
Estão aqui, quase na minha frente, atestados médicos, contas recheadas de multas, times que não foram campeões, crises financeiras particulares e a máquina de lavar roupa que se estraga pela enésima vez, até sonhos que não se realizaram estão bem perto, basta fechar os olhos. Estou vivo ainda e até penso que o criador me escolheu para testes de resistência, bobagem, como diria Polyana, há gentes muito pior.
O caso então é limpar a sujeira e lapidar, até se chegar às essências, quão diferente e estimulante é cada desafio, cada experiência nova e, claro, se é pra se dividir em períodos cronológicos, cada ano.
Foi um período de sofrimentos e estou só falando do ano que passou, como se a vida toda não tenha me oferecido, vez por outra, sofreres. Foi um período de renascimento, visitei a experiência de adoecer o corpo, visitei a sensação, muito estranha diga-se de passagem, de ter sobre o corpo nu, uma forte luz e estar entregue a doutores em feridas terrenas para que eles decidissem, com suas habilidades, se eu deveria ou não continuar o movimento de pernas que me levam as minhas escolhas.
Eram bons os profissionais e eu escolhi viver. Quanto às escolhas para os próximos sem número de dias que ainda quero mofar em intermináveis filas de pontos de ônibus, tenho pensado em fazer novas opções. Percebi que aqueles valores que o velho José, meu pai, tanto me falava, são necessários e vitais e o que me parecia até tão irreal acendeu dentro de mim como que tocando-me e vi a urgência de exercitar o simples; ando me cobrando tolerância e generosidade, quero pedir menos, ceder bem mais, me alimentar melhor e abandonar vícios. Ando ansioso por um mundo melhor e o que é melhor, fazer a minha parte nessa construção utópica. Me preocupa a quantas vai o meio ambiente, a qualidade de vida dos desapossados e toda as injustiças de um mundo altamente tecnológico, mas que não exercitam os valores do Seu Zezinho.
Tenho a quem amar, uns mais, outros menos, se é que amor tem pesos e medidas, não me faltam oportunidades de doar o que só eu tenho. É tempo de novas direções, tudo bem, demorei um pouco, mas ainda é tempo e nunca pode ser tarde pra ceder um lugar na fila ou dizer muito obrigado aos atendentes que me tratam respeitosamente de “patrão”; não é tarde pra amar àqueles que menos merecem: são os que mais precisam.
Vou dizer um versinho do Quintana na secretária eletrônica, soltar os passarinhos da gaiola, lamber a tampa do iogurte e saltar em poças d’água. Quero fazer rir quem por perto estiver, mexer mais os quadris e, segundo o mesmo Quintana, evitar recados, canudinhos de refrigerantes e mensagens off line, afinal, não há nada que substitua a comunicação direta e claro o prazer da troca de brilhos de olhares.

Adilson Sobrinho

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