quarta-feira, 27 de maio de 2009

ODE AOS VADIOS E PEDINTES

Fernando Pessoa na rua da Baixa
Não sinto, mas sou capaz de escrever a dor alheia, por vezes a imagino, o que para um pretenso poeta que não sou, não se trata de infame sadismo, afinal, alguém teria de descrever as dores do mundo, me encargo desse fardo, até porque nem parvo sou.
Pessoa, Oh Fernando belíssimo Pessoa, como a pequenez dos pobres, tristes e invejosos homens trazem em seu cerne a fingida ingenuidade “anônima”, destes sim, tenho pena, sinto muita pena, como a ti de seu vadio e pedinte em uma rua da baixa.
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado, (e romantismo, sim, mas devagar...), mas, mais que nunca, amo e sou amado, mesmo que isso incomode mais a pedintes do que a vadios.
Quanta pena e decepção do flagelo dos tão conhecidos “anônimos”.

terça-feira, 26 de maio de 2009

DOIS PRA LÁ, DOIS PRA CÁ.

Queria dividir com alguém meus dias; alguém que como eu ouvisse sempre com espanto as flautas do Ian Anderson, que comesse pão na frigideira, que morresse de rir de piadinhas infames, assistisse a programas de entrevistas, odiasse gente que se mete a cuidar de nossas vidas, gente que se apagou pro mundo, gente que fala alto em lugares públicos e atende ao celular em locais impróprios.
Queria dividir com alguém meus dias, sejam eles de inverno, até porque são muito bonitos, queria dividir com alguém o meu sofrimento em filas, minha angústia com as desigualdades sociais, as derrotas do Flamengo e meu creme dental.
Seria muito bom dividir com alguém aquele último pedaço de bolo, aquela última ponta de esperança, aquelas manias que até então eram só minhas, e porque não minha cama e cobertor.
Quero dividir com alguém as emoções daquele show do Lenine, a gostosa leitura de um livro e as impressões sobre aquele filme do Almodovar.
Queria dividir com alguém essa ânsia de um mundo melhor, o cuidado com o meio ambiente e a alegria de uma manhã de sábado e de sol a comprar comestíveis de cor verde.
Como seria bom dividir com alguém preliminares e orgasmos...
Não sei se alguém me aturaria em minhas badtrips, mas queria poder dividi-las com alguém, queria contar com alguém, a qualquer momento e em qualquer lugar, pedindo palpites, dinheiro, conselhos e colo.
Quero dividir com alguém meus medos, altura, água fria, elevador, pitt bull e meu inventário de cicatrizes.
Já quis dividir com outro alguém o meu prazer naquilo que faço, já quis dividir com outro alguém as coisas que escrevo e até quis dividir com esse mesmo outro alguém um delicado e possível romance, foi difícil a partilha.
Hoje, decididamente, eu quero dividir com alguém minha conta bancária, minha paixão pelas crianças e animais e os palpites nos jogos de marcar números.
Hoje, também e definitivamente eu queria poder dividir com alguém todas as minhas dores, as do corpo e as da alma.
Poderia ser pra amanhã, mas eu ainda iria querer dividir com alguém esse tanto que ainda resta de mim, o que me coube e sobrou de tantas outras divisões.
Ainda penso que das sobras, sobrou um tanto assim de tempo, pra quem sabe dividir os meus últimos “subir e descer” de escadas e de humor.
Quero dividir com alguém nosso inevitável envelhecimento e nossa coragem de ainda assim nos amarmos.
Quero dividir tudo o que de bom eu tenho e que não deve ficar se enchendo de mofo nas gavetas do egoísmo.
Amor se divide e não deve ser lá muito bom, não deixar alguém chorando, porque até a morte se divide.
Que eu tenha tempo pra tantos desejos e partilhas.

terça-feira, 19 de maio de 2009

A CADA UM, O INFERNO QUE MEREÇA!


É provável que haja sim,
alguma relação com o inverno;
Vem do frio, vem do nada,
e viver se torna um inferno.

Nesta estação não veio mansa;
martiriza, dilacera;
novos velhos ventos vindos;
bem igual ao que dantes era.

Nas vagas das horas vãs
me recolho e não me entendo;
dei-me tanto em formas vis
e hoje me pego doendo...

Quão cíclico é estar vivo ...

sexta-feira, 15 de maio de 2009

GUARDADAS AS DEVIDAS PROPORÇÕES










Pra quem tem ou se aproxima da minha idade, o que aliás não a tornarei pública e é por pura vaidade mesmo, ficam lembranças bem interessantes dos tantos anos já vividos, e destas, as que, eu por exemplo, mais recordo com prazer são aquelas de coisas simples, bem simples mas que em determinado momento e contexto, fizeram toda a diferença. Alguém aí se lembra das balas soft (aquela que engasgava criancinhas), não pelo fato de entupir laringes infantis, mas por que eram boas mesmo.
Ando tentando em uma busca desenfreada comparar o prazer do amor com os prazeres simples e deliciosos da vida, se é que amor se compara a algo, mas por mera distração, tentei elencar coisas que me deram infinita alegria, quase perto daquela que sinto ao ter e dar amor a uma especial e exclusivíssima pessoa, então vamos lá:

Maria Lucia Padilha nunca me fez engasgar como as já citadas balas, mas amá-la e tê-la é de uma infinita doçura;
Maria Lucia Padilha não se parece com uma fita K7 Basf novinha, onde eu gravava meus rocks, mas amá-la e tê-la é ouvir mesmo que dormindo, Robert Plant em Going to Califórnia;
Maria Lucia Padilha não tem muito haver com a menininha das tirinhas “Amar é...”, até porque ela já é o próprio significado do verbo;

Maria Lucia não se compara àquela taça de “banana split”, até porque e muito antes pelo contrário, amá-la e tê-la eleva acintosamente a minha temperatura;
Maria Lucia não pode ser comparada ao Flamengo de 81, mas amá-la e tê-la é a certeza de domingos de muita alegria;
Maria Lucia não é uma tarde de sábado no programa do Chacrinha, amá-la e tê-la, bem sei e conjecturo é bem melhor que a própria Teresinha.

Lucia me lembra roupa nova de ir a missa, bonita, cheirosa e brilhante, que dá uma vontade de mostrar pra todo mundo e se levanta o nariz com excessivo orgulho;
Lucia é livro e caderno novo em fevereiro, que se encapa com carinho pra durar pro resto da vida;
Lucia é parque de diversões e amá-la e tê-la e tão emocionante como os recadinhos carinhosos do serviço de auto-falante.
Lu é a casquinha do sorvete que se come até o fim;
Lu é boletim todo azul em dezembro;
Um jeans velho, azul e desbotado;
Acampamento de última hora;
Caixa de lápis com 24 cores;
Picolé de goiaba na praia;
Vento forte nos cabelos;
Peixe beliscando a isca;
Água fria de cachoeira;
Tênis que não aperta;
Visita de padrinho;
Presente de Natal;
Lençóis brancos;
Bolas de gude;
Pés descalços;
Cama macia;
Chuva fina;
Férias;
Amor.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

A insustentável constância daquilo que chamamos ser ou estar


Assim ontem, assado hoje e no breu das próximas horas, não sei amanhã.
De cair o queixo a rapidez com que as coisas do mundo transformam a você e ao seu humor. Já nem se pode mais se dar o direito de programar um dia feliz para depois da meia noite, sabe-se lá que ventos soprarão contra ou a favor e, mesmo em extrema calmaria, pende-se a dúvida para o pavor das surpresas.
Contam-se em estalos de segundos o escurecer das nuvens que circundam por sobre nossas cabeças, hoje assim, daqui a muito pouquinho assado, medo e até algo próximo ao pânico nos rodeia frente a pequeniníssima possibilidade de mudança de tempo, tempo do outro, tempo do mundo, tempo de coisas das quais não nos ensinaram a ter o controle.
Hoje assim, quisera amanhã também, aí, de onde menos se espera disparam-se tiros e quilos de incompreensão, mal humores ou mesmo a simples vontade de tingir de formigas a toalha de seu piquenique.
Que dá medo, que medo que dá, ser feliz, dá medo.
Dil Sobrinho, assustado

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