terça-feira, 26 de maio de 2009

DOIS PRA LÁ, DOIS PRA CÁ.

Queria dividir com alguém meus dias; alguém que como eu ouvisse sempre com espanto as flautas do Ian Anderson, que comesse pão na frigideira, que morresse de rir de piadinhas infames, assistisse a programas de entrevistas, odiasse gente que se mete a cuidar de nossas vidas, gente que se apagou pro mundo, gente que fala alto em lugares públicos e atende ao celular em locais impróprios.
Queria dividir com alguém meus dias, sejam eles de inverno, até porque são muito bonitos, queria dividir com alguém o meu sofrimento em filas, minha angústia com as desigualdades sociais, as derrotas do Flamengo e meu creme dental.
Seria muito bom dividir com alguém aquele último pedaço de bolo, aquela última ponta de esperança, aquelas manias que até então eram só minhas, e porque não minha cama e cobertor.
Quero dividir com alguém as emoções daquele show do Lenine, a gostosa leitura de um livro e as impressões sobre aquele filme do Almodovar.
Queria dividir com alguém essa ânsia de um mundo melhor, o cuidado com o meio ambiente e a alegria de uma manhã de sábado e de sol a comprar comestíveis de cor verde.
Como seria bom dividir com alguém preliminares e orgasmos...
Não sei se alguém me aturaria em minhas badtrips, mas queria poder dividi-las com alguém, queria contar com alguém, a qualquer momento e em qualquer lugar, pedindo palpites, dinheiro, conselhos e colo.
Quero dividir com alguém meus medos, altura, água fria, elevador, pitt bull e meu inventário de cicatrizes.
Já quis dividir com outro alguém o meu prazer naquilo que faço, já quis dividir com outro alguém as coisas que escrevo e até quis dividir com esse mesmo outro alguém um delicado e possível romance, foi difícil a partilha.
Hoje, decididamente, eu quero dividir com alguém minha conta bancária, minha paixão pelas crianças e animais e os palpites nos jogos de marcar números.
Hoje, também e definitivamente eu queria poder dividir com alguém todas as minhas dores, as do corpo e as da alma.
Poderia ser pra amanhã, mas eu ainda iria querer dividir com alguém esse tanto que ainda resta de mim, o que me coube e sobrou de tantas outras divisões.
Ainda penso que das sobras, sobrou um tanto assim de tempo, pra quem sabe dividir os meus últimos “subir e descer” de escadas e de humor.
Quero dividir com alguém nosso inevitável envelhecimento e nossa coragem de ainda assim nos amarmos.
Quero dividir tudo o que de bom eu tenho e que não deve ficar se enchendo de mofo nas gavetas do egoísmo.
Amor se divide e não deve ser lá muito bom, não deixar alguém chorando, porque até a morte se divide.
Que eu tenha tempo pra tantos desejos e partilhas.

Um comentário:

Dil Sobrinho disse...

Nota do autor a quem interessar possa:

Não sinto, mas sou capaz de escrever a dor alheia, por vezes a imagino, o que para um pretenso poeta que sou não se trata de infame sadismo, afinal, alguém teria de descrever as dores do mundo, me encargo desse fardo, até porque nem parvo sou.
Pessoa, Oh Fernando belíssimo Pessoa, como a pequenez dos pobres, tristes e invejosos homens trazem em seu cerne a fingida ingenuidade “anônima”, destes sim, tenho pena, sinto muita pena, como a ti de seu vadio e pedinte em uma rua da baixa.
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado, (e romantismo, sim, mas devagar...), mas, mais que nunca, amo e sou amado, mesmo que isso incomode mais a pedintes do que a vadios.
Quanta pena e decepção do flagelo dos tão conhecidos “anônimos”.

"O cidadão é o poeta do direito e da justiça; o poeta é o cidadão do belo e da arte".

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