segunda-feira, 7 de setembro de 2009

BioBlogPE: TPV - TENSÃO PRÉ-VESTIBULAR

BioBlogPE: TPV - TENSÃO PRÉ-VESTIBULAR

Agradecido pela citação de meu nome na autoria do texto, não é o que tem acontecido por aí.
Abraços e sucesso.

terça-feira, 30 de junho de 2009

BICHO SOLTO

Nasci borboleta, bela, colorida e provida de luz, até me aparecer Franz Kafka, com ele tomei alguma simpatia pelas tão excluídas baratas. Nas eternas fugas das solas de todos os tipos de solados, vim sobrevivendo, se fosse pra morrer não teria de ser sob uma havaiana qualquer, como um sonho de consumo, adoraria ser humildemente esmagada pelo Rider, de preferência o do Marcos Palmeira.
Eis que me surge, em minhas fornicações enquanto barata, nos velhos sebos literários, George Orwell, lendo-o e relendo-o, fiz cá comigo minha própria revolução, não negando a categoria, claro, “Bichos Unidos Jamais Serão Vencidos”, mas, inevitavelmente me fiz uma leitoa, uma pig rosada como aquela voadora do disco do Pink Floyd. Mas vida de leitoa é bem complicada, manter-se em forma, sem aquelas incômodas gordurinhas, aqueles quilinhos a mais, pra evitar o abate, nos faz diferentes dos humanos que preferem os ossos à mostra da Gisele.
Caiu em meus ouvidos uma canção do Raul, tinha até mago de coadjuvante, um tal coelho, me vi então uma ambulante metamorfose, quis ser King Kong, símio malandro, que só traçava loiras cinematográficas, ou quem sabe Flipler, um golfinho boiolíssimo dos seriados da tv, já fui Lassie, Bethoven , Chita e até, saindo do mundo dos bichos, um fusca que falava...
Transmutações... Hoje minha condição de humana me causa alguma vergonha, que saudade das borboletas que, sem esforço algum, são belas, coloridas e providas de luz.
Moral da história ( Moral é invenção dos homens ), quanto mais me intero do mundo animal, mais os invejo e faço cá comigo minhas metamorfoses pessoais pra todos os momentos de minha atribulada vida. Tomo como verdadeiro o meu pavor da raça humana, há que se dizer por que ?

Abnegada Abgail

sábado, 6 de junho de 2009

SOBRE BODES E PATAS - Parábola sobre amores animais ... domésticos










Certa feita um bode (não era velho, mas já era rabujento), cismou de entrar na vida de uma patinha, o sucesso da investida foi tamanho, que tinha até camisa de fã clube. Tá bom, mas e daí? Daí que esse personagem não entrou na vida de ninguém apenas para dividir a ração e os prazeres da vida nas nossas fazendas diárias, ele queria na verdade, e ele era e é verdadeiro até hoje, era dividir tudo aquilo que dissesse respeito àquela que ele então passou a chamar de “sua patinha”.
Nem caberia na história os tantos momentos já vividos nessa relação um tanto inédita, inédita em quase tudo, e os dois sabem bem disso, bodes e patos não se ajeitam lá muito bem, ou se ajeitam até por demais de uma forma que muito pouca gente entende.
Todo mundo tem momentos de patos e/ou momentos de bode, salvo o trocadilho, momentos de bode também podem ser muito bons. Todo o mundo, inclusive os chineses lá da China e os burquina fassensse de Burquina Fasso tem momentos de luz, permeados, claro que, (Ih, lá vem merda) de momentos muito tristes e ruins, ou seja, entenda-se por lá vem merda tudo aquilo que com ou sem a nossa permissão nos tira um bocado de sossego.
Ansiedade, tensão, medo do carai (o que significa um medo grande e não pavor do pênis), não são lugar comum para nenhuma criatura na face da terra, e assusta, como assusta, e em momentos de grandes sustos e de um certo descontrole emocional (também chamado de choro), há que se ter sempre a mão, já que não um pelo de bode, um telefone pelo qual se liga e ali mesmo, na parte em que se fala, agora se chora.
É impressionante que a história do bode e da pata está arquivada e nunca teve um THE END, prenúncio, bom sinal, e nenhuma história tem fim se assim quisermos e fizermos que isso aconteça, assim como a história de nossas vidas e a história da vida das pessoas que amamos.
E disse Deus! E por que diabos Deus vai entrar agora nessa crônica agora? Porque, bode que é bom não berra e finge até que não conversa com Deus, balela (patas costumam odiar essa palavra), bodes conversam sim com seja lá quem for pra buscar respostas e razões pra tudo o que possa tirar sua patinha do travesseiro as tantas da manhã em pleno desalinho emocional. E é sabido que em seu último colóquio mais que particular com a divindade, obteve garantias e respostas das mais positivas e alentadoras para tudo aquilo aflige sua patinha. Sua divindade disse coisas que até Ele duvida, mas garantiu veementemente que tudo vai terminar da forma mais serena e vai dar a lógica: “No final, tudo vai dar certo”, isto foi ele quem me garantiu, agora tem que ser uma pata muito das atrevidas pra discordar da palavra do homi, vai querer???
No entanto, o choro chora, a dor dói, o medo amedronta, a ansiedade ansia e a preocupação preocupa e, nessas horas, só restam basicamente 2 opções, ou quem sabe 3, entregue-se ao sofrimento, ligue pra bodes dispostos ou acredite nas previsões e na confiança que manténs Nele, o cara, até porque ele sempre, desde que eu me entendo por bode, soube muito bem o que fez.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

ODE AOS VADIOS E PEDINTES

Fernando Pessoa na rua da Baixa
Não sinto, mas sou capaz de escrever a dor alheia, por vezes a imagino, o que para um pretenso poeta que não sou, não se trata de infame sadismo, afinal, alguém teria de descrever as dores do mundo, me encargo desse fardo, até porque nem parvo sou.
Pessoa, Oh Fernando belíssimo Pessoa, como a pequenez dos pobres, tristes e invejosos homens trazem em seu cerne a fingida ingenuidade “anônima”, destes sim, tenho pena, sinto muita pena, como a ti de seu vadio e pedinte em uma rua da baixa.
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado, (e romantismo, sim, mas devagar...), mas, mais que nunca, amo e sou amado, mesmo que isso incomode mais a pedintes do que a vadios.
Quanta pena e decepção do flagelo dos tão conhecidos “anônimos”.

terça-feira, 26 de maio de 2009

DOIS PRA LÁ, DOIS PRA CÁ.

Queria dividir com alguém meus dias; alguém que como eu ouvisse sempre com espanto as flautas do Ian Anderson, que comesse pão na frigideira, que morresse de rir de piadinhas infames, assistisse a programas de entrevistas, odiasse gente que se mete a cuidar de nossas vidas, gente que se apagou pro mundo, gente que fala alto em lugares públicos e atende ao celular em locais impróprios.
Queria dividir com alguém meus dias, sejam eles de inverno, até porque são muito bonitos, queria dividir com alguém o meu sofrimento em filas, minha angústia com as desigualdades sociais, as derrotas do Flamengo e meu creme dental.
Seria muito bom dividir com alguém aquele último pedaço de bolo, aquela última ponta de esperança, aquelas manias que até então eram só minhas, e porque não minha cama e cobertor.
Quero dividir com alguém as emoções daquele show do Lenine, a gostosa leitura de um livro e as impressões sobre aquele filme do Almodovar.
Queria dividir com alguém essa ânsia de um mundo melhor, o cuidado com o meio ambiente e a alegria de uma manhã de sábado e de sol a comprar comestíveis de cor verde.
Como seria bom dividir com alguém preliminares e orgasmos...
Não sei se alguém me aturaria em minhas badtrips, mas queria poder dividi-las com alguém, queria contar com alguém, a qualquer momento e em qualquer lugar, pedindo palpites, dinheiro, conselhos e colo.
Quero dividir com alguém meus medos, altura, água fria, elevador, pitt bull e meu inventário de cicatrizes.
Já quis dividir com outro alguém o meu prazer naquilo que faço, já quis dividir com outro alguém as coisas que escrevo e até quis dividir com esse mesmo outro alguém um delicado e possível romance, foi difícil a partilha.
Hoje, decididamente, eu quero dividir com alguém minha conta bancária, minha paixão pelas crianças e animais e os palpites nos jogos de marcar números.
Hoje, também e definitivamente eu queria poder dividir com alguém todas as minhas dores, as do corpo e as da alma.
Poderia ser pra amanhã, mas eu ainda iria querer dividir com alguém esse tanto que ainda resta de mim, o que me coube e sobrou de tantas outras divisões.
Ainda penso que das sobras, sobrou um tanto assim de tempo, pra quem sabe dividir os meus últimos “subir e descer” de escadas e de humor.
Quero dividir com alguém nosso inevitável envelhecimento e nossa coragem de ainda assim nos amarmos.
Quero dividir tudo o que de bom eu tenho e que não deve ficar se enchendo de mofo nas gavetas do egoísmo.
Amor se divide e não deve ser lá muito bom, não deixar alguém chorando, porque até a morte se divide.
Que eu tenha tempo pra tantos desejos e partilhas.

terça-feira, 19 de maio de 2009

A CADA UM, O INFERNO QUE MEREÇA!


É provável que haja sim,
alguma relação com o inverno;
Vem do frio, vem do nada,
e viver se torna um inferno.

Nesta estação não veio mansa;
martiriza, dilacera;
novos velhos ventos vindos;
bem igual ao que dantes era.

Nas vagas das horas vãs
me recolho e não me entendo;
dei-me tanto em formas vis
e hoje me pego doendo...

Quão cíclico é estar vivo ...

sexta-feira, 15 de maio de 2009

GUARDADAS AS DEVIDAS PROPORÇÕES










Pra quem tem ou se aproxima da minha idade, o que aliás não a tornarei pública e é por pura vaidade mesmo, ficam lembranças bem interessantes dos tantos anos já vividos, e destas, as que, eu por exemplo, mais recordo com prazer são aquelas de coisas simples, bem simples mas que em determinado momento e contexto, fizeram toda a diferença. Alguém aí se lembra das balas soft (aquela que engasgava criancinhas), não pelo fato de entupir laringes infantis, mas por que eram boas mesmo.
Ando tentando em uma busca desenfreada comparar o prazer do amor com os prazeres simples e deliciosos da vida, se é que amor se compara a algo, mas por mera distração, tentei elencar coisas que me deram infinita alegria, quase perto daquela que sinto ao ter e dar amor a uma especial e exclusivíssima pessoa, então vamos lá:

Maria Lucia Padilha nunca me fez engasgar como as já citadas balas, mas amá-la e tê-la é de uma infinita doçura;
Maria Lucia Padilha não se parece com uma fita K7 Basf novinha, onde eu gravava meus rocks, mas amá-la e tê-la é ouvir mesmo que dormindo, Robert Plant em Going to Califórnia;
Maria Lucia Padilha não tem muito haver com a menininha das tirinhas “Amar é...”, até porque ela já é o próprio significado do verbo;

Maria Lucia não se compara àquela taça de “banana split”, até porque e muito antes pelo contrário, amá-la e tê-la eleva acintosamente a minha temperatura;
Maria Lucia não pode ser comparada ao Flamengo de 81, mas amá-la e tê-la é a certeza de domingos de muita alegria;
Maria Lucia não é uma tarde de sábado no programa do Chacrinha, amá-la e tê-la, bem sei e conjecturo é bem melhor que a própria Teresinha.

Lucia me lembra roupa nova de ir a missa, bonita, cheirosa e brilhante, que dá uma vontade de mostrar pra todo mundo e se levanta o nariz com excessivo orgulho;
Lucia é livro e caderno novo em fevereiro, que se encapa com carinho pra durar pro resto da vida;
Lucia é parque de diversões e amá-la e tê-la e tão emocionante como os recadinhos carinhosos do serviço de auto-falante.
Lu é a casquinha do sorvete que se come até o fim;
Lu é boletim todo azul em dezembro;
Um jeans velho, azul e desbotado;
Acampamento de última hora;
Caixa de lápis com 24 cores;
Picolé de goiaba na praia;
Vento forte nos cabelos;
Peixe beliscando a isca;
Água fria de cachoeira;
Tênis que não aperta;
Visita de padrinho;
Presente de Natal;
Lençóis brancos;
Bolas de gude;
Pés descalços;
Cama macia;
Chuva fina;
Férias;
Amor.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

A insustentável constância daquilo que chamamos ser ou estar


Assim ontem, assado hoje e no breu das próximas horas, não sei amanhã.
De cair o queixo a rapidez com que as coisas do mundo transformam a você e ao seu humor. Já nem se pode mais se dar o direito de programar um dia feliz para depois da meia noite, sabe-se lá que ventos soprarão contra ou a favor e, mesmo em extrema calmaria, pende-se a dúvida para o pavor das surpresas.
Contam-se em estalos de segundos o escurecer das nuvens que circundam por sobre nossas cabeças, hoje assim, daqui a muito pouquinho assado, medo e até algo próximo ao pânico nos rodeia frente a pequeniníssima possibilidade de mudança de tempo, tempo do outro, tempo do mundo, tempo de coisas das quais não nos ensinaram a ter o controle.
Hoje assim, quisera amanhã também, aí, de onde menos se espera disparam-se tiros e quilos de incompreensão, mal humores ou mesmo a simples vontade de tingir de formigas a toalha de seu piquenique.
Que dá medo, que medo que dá, ser feliz, dá medo.
Dil Sobrinho, assustado

quinta-feira, 23 de abril de 2009

E ai a máscara


Por um certo período, por motivos “diplomáticos” , me escondi atrás de um personagem que assinava minhas crônicas. O criei feminino e lhe batizei de Abnegada Abgail. Foi sem dúvida uma experiência inusitada e, por que não, deliciosa, encarnar uma suburbana alto astral e seus delírios diários.
Seguem alguns escritos “psicografados” a mim por uma tal Abgail.
Adilson

quarta-feira, 22 de abril de 2009

A velha e desbotada desculpa


Sempre tive paixão por carros pretos, homens altos, barbas por fazer e camisas pólo. Exatamente isso tudo aí era Jorge. Dentes brancos, peitão peludo, jeito meio grosseiro, aí, não teve jeito, paixão a primeira carona.
Não me lembro da marca do carro, mas me lembro de suas longas mãos indo e vindo no câmbio, uma fala mansa, jeans levemente desbotados e uma bota importada de Barretos que o fazia o meu Clint Eastwood.
Enamoramo-nos, buscava-me na repartição e eu, me atrasava na saída propositalmente pra que toda a peruada de minha seção me vissem entrando com aquele monumento no possante preto motor 8 cilindros, se bem que esse tanto de cilindros nunca fez muita diferença em nossas vidas. Jorge era meigo, carinhoso, divertido, atrapalhado e ainda tocava boleros em seu velho violão, só pra mim, ah ! Perfídia, não precisava de mais, eu não queria mais, adorava o seu jeito estranho e animal de puxar meus cabelos pela nuca e aproximar minha boca da sua, é certo que por vezes doía, mas nessa hora o que sempre importou foi o amor que vínhamos nutrindo um pelo outro.
Me levava a passeios românticos nos pedalinhos do lago, ele fazia uma força descomunal para me agradar, via todo o seu amor no suor que escorria e na vermelhidão do rosto após alguns quilômetros de pedaladas, éramos muito felizes.
Quis, com todo o direito, conhecer meus pais, marcamos pra um domingo, desde o acordar a casa era toda preparada pra ele, mamãe sugeriu colocarmos a mesa no quintal, papai gostou da idéia mas lembrou que Biscoito, nosso cão pequinês , provavelmente não daria sossego à visita, concordamos em ficar quietinhos dentro de casa e Biscoito bem alimentado e feliz do lado de fora pra evitar embaraços. O cardápio foi a parte mais difícil, resolvemos quase de última hora por um refogado de pescoço de peru que mamãe preparava magnificamente e que, provavelmente Jorge nunca teria comido e se esbaldaria.
Foi um sucesso, Jorge levantava papai à centímetros do chão, abraçando-o toda vez que juntos brindavam com uma cachaça mineira que não sei de onde apareceu, com mamãe dançou Altemar Dutra, até que as varizes de plantão de Dona Laíde não mais agüentaram, trouxe o violão e após nos enfartarmos de peru, tocou perfídia e me beijou longamente, me lembro daquele beijo até hoje, tinha o gosto do pudim da sobremesa. As vizinhas vieram conhecê-lo e teciam comentários muito positivos junto à mamãe, foi um sonho aquele domingo inesquecível.
Já se fazia um ano de nossa convivência harmoniosa, quando Jorge começou como que do nada a se afastar, se fazer distante, aparecer menos, e me beijar de forma mais casual, tentei renovar nosso caso, presenteei-lhe, dei tudo o que podia de mim, dei-me por completa, a distância, me parecia aumentar, percebi claramente que era o começo do fim.
Jorge desapareceu por exatos trinta dias, até que recebi no meu portão o carteiro com uma carta que trazia apenas o destinatário, percebi sua letra e a intenção de que ele não queria ser localizado. Tremi, temi, abri, era uma carta sim de despedida, sem uma real explicação de onde eu ou nós havíamos errado, ele estava me deixando, nos deixando e abrindo mão de todo o amor que eu sempre lhe devotei.
Ao final de sua carta, com sua letra rota e trêmula deixou uma breve nota ao pé da página:

__ Minha flor, é com grande e doloroso pesar que aqui termino com nosso sonho, mas acredite só o fiz por você, você merece coisa melhor !!!
Abnegada Abgail

Coroa é a sua avó!


Do que me consta, realmente nada a comemorar, ranzinza eu? Experimente ir perdendo o ar enquanto amarra os sapatos !
Essas datas são pra mim um horror, sempre me lembro que a tendência é só piorar, dizem que se ganha experiência, sim muita, até porque se faz necessário muita experiência para estar sempre fazendo a dieta certa, cuidando do maldito colesterol, e o coração ? Por enquanto vai bem obrigado. Varizes, artroses, reumatismos, gota, osteoporose, menopausa, libido em baixa, Deus ! Afasta de mim essas velinhas, esse maldito bolo e as irritantes línguas de sogra.
Não vou, me recuso a falar das... rugas, esse amontoado de pele sob meus olhos, quero demitir-me de mim, quero minha cara de volta, aquela lisinha, pele de pêssego, devolvam-me os cabelos ainda castanhos sem branquelos intrusos a me fazerem gastar fortunas em “vermelhos intensos acaju”. Comemorar o que ?
É um tal de aumenta isso, diminui aquilo, o corpo vai ficando em forma, forma de barril, não me atrevo a usar mais aquelas sainhas que já arrancaram assobios, não me vejo ouvindo vaias, não sou mais eu, esta não sou mais eu, mesmo que me chamem pelo mesmo nome e, que no maldito CPF esteja lá gravado a minha real identidade.
Não me chamem de senhora, não me dêem lugar no ônibus, não me passem a frente nas filas e não me digam, “___ Tia, você no alto de sua experiência! “...
Comemorar o que ? Ando achando a juventude tão banal, a moda longe do meu bom gosto, a música tão aquém de minhas bossas, a noite tão grande e cansativa, o vizinho um chato barulhento e os sobrinhos um porre, sinais do tempo ou da idade?
Devolvam-me o que já fui, mentira dizer que envelhecer é nobre, uma ova ! Ando tendo paciência pra passar horas com um livro na mão, mas me recuso a mudar de sala no chat da internet. Ando inventando pratos na cozinha, já não me apraz os fast foods. Comprei como por ímpeto uma camisola e meias de lã, por que não mais dormir sensualmente semi despida e com os pés descalços ?
O que há de bom em acordar sempre antes de todos, tratar dos passarinhos e fazer o café ?
O que há de bom em perceber que todos os mais bonitos e sensuais são muito novos pra mim?
O que há de bom em ir a reuniões escolares do ensino médio ? Agora da Faculdade, rsss
Não, nada a comemorar !
Me resta a canção:

Parabéns pra você,
por mais vida perdida,
já passastes da idade,
Se aposenta querida !
Abnegada Abgail

REVOLUÇÃO EM MIM


Em pessoa, a revolução nos observa, pelo espelho, em reflexo, pré eletrograma da alma, assim foi e assim será o início, o meio e o nunca acabar. Bah tchê, ou Guevara a espreita no aprendizado do amor. Amor cubano, e do mundo, Fidel, fiel, cercado de Cienfuegos e paixão. Eu e você no cume da Sierra Maestra, exilados de medo e envoltos pelo caliente amor que vai além do Caribe, vai além das mais possíveis imaginações, fantasia que se realizou e permanece sã, insana, perene, fecunda e infinita, até que dure.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

ABERTO PARA BALANÇO

Houve um tempo em que era quase que uma obrigação, a cada 365 dias corridos, sentar-me em local distante, de preferência aqueles em que o que nos cerca é o sossego, e fazer um balanço geral do ano que se passou.
Há tempos não me atenho a essa prática; anos vem e vão e eu indo e vindo junto, sem tempo, razão e nem vontade de ficar fazendo avaliações do que foi bom ou ruim no período compreendido entre a ressaca do Reveillon e a nova chegada de Papai Noel.
Hoje é quase 2009 e eu quase 50, então pensei em preencher mais uma branca folha com reminiscências dos mais de trezentos dias vividos em 2008.
Que critérios usar para a seleção de bom ou ruim, já que, segundo dito popular, tudo o que é escuro tem um lado claro ou tudo o que é leve pode vir a ganhar peso.
Estão aqui, quase na minha frente, atestados médicos, contas recheadas de multas, times que não foram campeões, crises financeiras particulares e a máquina de lavar roupa que se estraga pela enésima vez, até sonhos que não se realizaram estão bem perto, basta fechar os olhos. Estou vivo ainda e até penso que o criador me escolheu para testes de resistência, bobagem, como diria Polyana, há gentes muito pior.
O caso então é limpar a sujeira e lapidar, até se chegar às essências, quão diferente e estimulante é cada desafio, cada experiência nova e, claro, se é pra se dividir em períodos cronológicos, cada ano.
Foi um período de sofrimentos e estou só falando do ano que passou, como se a vida toda não tenha me oferecido, vez por outra, sofreres. Foi um período de renascimento, visitei a experiência de adoecer o corpo, visitei a sensação, muito estranha diga-se de passagem, de ter sobre o corpo nu, uma forte luz e estar entregue a doutores em feridas terrenas para que eles decidissem, com suas habilidades, se eu deveria ou não continuar o movimento de pernas que me levam as minhas escolhas.
Eram bons os profissionais e eu escolhi viver. Quanto às escolhas para os próximos sem número de dias que ainda quero mofar em intermináveis filas de pontos de ônibus, tenho pensado em fazer novas opções. Percebi que aqueles valores que o velho José, meu pai, tanto me falava, são necessários e vitais e o que me parecia até tão irreal acendeu dentro de mim como que tocando-me e vi a urgência de exercitar o simples; ando me cobrando tolerância e generosidade, quero pedir menos, ceder bem mais, me alimentar melhor e abandonar vícios. Ando ansioso por um mundo melhor e o que é melhor, fazer a minha parte nessa construção utópica. Me preocupa a quantas vai o meio ambiente, a qualidade de vida dos desapossados e toda as injustiças de um mundo altamente tecnológico, mas que não exercitam os valores do Seu Zezinho.
Tenho a quem amar, uns mais, outros menos, se é que amor tem pesos e medidas, não me faltam oportunidades de doar o que só eu tenho. É tempo de novas direções, tudo bem, demorei um pouco, mas ainda é tempo e nunca pode ser tarde pra ceder um lugar na fila ou dizer muito obrigado aos atendentes que me tratam respeitosamente de “patrão”; não é tarde pra amar àqueles que menos merecem: são os que mais precisam.
Vou dizer um versinho do Quintana na secretária eletrônica, soltar os passarinhos da gaiola, lamber a tampa do iogurte e saltar em poças d’água. Quero fazer rir quem por perto estiver, mexer mais os quadris e, segundo o mesmo Quintana, evitar recados, canudinhos de refrigerantes e mensagens off line, afinal, não há nada que substitua a comunicação direta e claro o prazer da troca de brilhos de olhares.

Adilson Sobrinho

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

A SONOLENTA DO TIETÊ


Já não sinto mais medo de São Paulo.
Desde muito pequeno me apavorava com a idéia de estar perdido entre aqueles enormes arranha-céus. Cidade louca né, o dobro de carros e avenidas que qualquer outra do Brasil, metrôs passando em desesperos tresloucados pelos nossos olhos, homens de terno sempre apressados, não se via calma naquele mundo veloz.
A minha imagem sempre foi televisiva e depreciativa, e tive medo, sempre evitando estar lá na paulicéia desvairada. Mas o destino não me poupou de ver e enfrentar de perto o meu pavor. Em uma viagem noturna em ônibus pouco confortável fui chegando perto do meu grande recalque, estava indo sim ao encontro de Lu, o meu grande e eterno amor.
O motivo era nobre e justo, mas o medo era constante em todo o decorrer de uma viagem com roncos que não eram os meus, os vizinhos pareciam não estar indo pra guilhotina como eu assim me sentia. A manhã se aproximou e adentramos a capital, tudo me pareceu muito calmo para a grande metrópole, pensei em Lu, me acalmei, desejei, já na rodoviária um bom descanso ao nosso motorista e pisei pela primeira vez no solo bandeirante por natureza.
Não vi garoa, e embolado em uma confusão de ombros, procurava por ela, lugar marcado tínhamos mas o destino novamente me fez vê-la como uma fada, subindo lentamente ao ritmo da escada rolante de encontro ao que seria o nosso primeiro e fatal contato. Nos conhecíamos pelas vozes ao telefone ou contatos internéticos, e algumas fotos é claro.
Como em ascensão ela veio chegando, não me viu em um primeiro instante, caminhei alguns passos ao seu lado, e à sua primeira percepção lhe acordei da inércia com um simples e tímido bom dia. Ela me fez abraçar, em seus tantos centímetros a mais que eu, me envolveu gostosamente como um grande afago. Nos falamos nervosamente e procuramos um café, afinal merecíamos.
A amei desde aquele instante, naquele minuto amei, amei São Paulo, seus ritmos apressados me soavam como música, sua imagem apavorante até então, fez-se quadro, não vi São Paulo, não vi os mesmos homens de ternos que me aterrorizavam, sei que passaram por mim, não vi a Sé, a Lapa, a Mooca, o Bexiga, Jabaquara...
Meus olhos não viam, eles sonhavam frente à imagem sonolenta e linda de Lu no Terminal Tietê. Inevitavelmente nos beijamos e, de olhos fechados, com meus lábios colados ao dela, vi São Paulo com o coração, vi que a felicidade não escolhe lugar, ela não marca encontros, a felicidade vem de escada rolante ou elevador ao nosso encontro e às vezes tem nome; Lu é o nome da minha.
Hoje vejo São Paulo ao fundo, no primeiro plano vejo o meu amor. O filme da velha máquina não deixa dúvidas..................... A cidade é linda !

ACONTECÊNCIAS

Quando por mim eu me dei,
você já sabia meu riso,
você já sabia meu choro,
já até sabia meu cheiro.

Hoje, já sabes de minha vida,
do meu coração e alma,
você já me sabe inteiro.

Já conhece meus temperos,
minhas raivas e paixões.
Antecipa-se aos meu sonhos,
me acompanha em devaneios,
dividindo ilusões.

Já sabe o meu e-mail,
minhas senhas e atalhos,
isso tudinho de cor,
aumenta meus megabytes
sempre que necessário,
pra eu funcionar melhor.

Me acalma, me irrita,
me perturba, me orienta
nessa aventura louca;
por vezes me ama,
por vezes me odeia e,
por vezes, me beija a boca.

Sabe onde guardo o açúcar ,
o pó e as minhas dores
e, após me servir um café,
se veste pra me agradar,
com todas as minhas cores.

Me abraça por telefone,
já sabe de cor o meu nome,
o número do meu sapato,
a cor do meu cobertor.

E quando a voz me some,
e alguma dor me consome;
me diz só palavras belas,
palavras tais como aquelas,
que sempre falam de amor.

Quando sou só alegria,
com risos me compartilha,
o doce dom de viver,
Eu peco, não retribuo,
sou seco, sou inseguro,
mas não penso em lhe perder.

Varamos um ano de acertos,
encaixes e tentativas,
na busca de amar melhor;
Temos conseguido muito,
tenho eu crescido muito,
já sei suas dores de cor.

Não posso negar agora,
ela sabe e tem tudo de mim,
Tem o homem, tem a alma,
tem meu infinito, e... fim.

A MINHA MUSA

A Musa que eu amo é linda e pra virar flor só precisa dos meus olhos;
A Musa que eu amo é doce, mais que balinhas originais da Alemanha;
A Musa que eu amo é deusa; nem preciso de epifanias, sinto-a;
A Musa que eu amo é bruxa boa, me enfeitiçou um tanto assim;
A Musa que eu amo é mulher quando é hora de ser mulher;
A Musa que eu amo é menina sem hora marcada;
A Musa que eu amo é romântica e nunca me disse isso, precisa ?
A Musa que eu amo faz poesias e a sua grande obra é nosso amor;
A Musa que eu amo é enorme, grande, mas sabe como se encaixar no meu pequeno colo;
A Musa que eu amo é mãe e ainda sabe ser pai, que coisa;
A Musa que eu amo tem Alberto, João e Paula; os outros são só sobrinhos;
A Musa que eu amo me ensinou o Caio e ele me traduziu Lucia;
A Musa que eu amo é uma bela flor, é flor bela, diva , encantadora.
A Musa que eu amo é também Mário, Pessoa, Caeiro, Drummond, Adélia.
É toda a poesia reunida;
A Musa que eu amo faz longas viagens diárias pra mim,
imaginando, em viagens imaginárias, a viagem real;
A Musa que eu amo me ama também;
A Musa que eu amo é pop, é hippie, é punk, yuppie e bossa nova.
Até já foi uma brasa, mora ?
A Musa que eu amo tem cheiro que diariamente me embriaga; orgasmos de organza;
A Musa, aquela que eu amo, é sedutora, maliciosa e sensual,
embora isso agora não venha ao caso, afinal, isso é pessoal e intransferível;
A Musa que eu amo é luz, dói nos olhos até que se acostume, é claro;
A Musa que eu amo é caixa de lápis de cor, se aponta e aponta sempre
pras melhores cores da vida;
A minha Musa parece seresta com violões em noites de Bom Jesus;
A minha Musa parece e-mails esperados, carteiros sorridentes e curiosos,
e o trim sonoro e feliz dos telefones.
A minha Musa parece um pedido realizado, uma promessa por pagar,um livro bom de ler, uma conta paga e cigarros sublimes após o sexo.
Eu queria que minha musa fosse...................... muito mais tarde.
Estou amor, sou amor e o serei até quando ?
Até antes de meu coração explodir e contaminar a todos que ainda acreditam no simples embaraçar de pernas.

A CADA DIA MAIS...




... amar tem de ser sinônimo de leveza, de paz, muita paz e principalmente de compreensão. Não quero pirar, corro de mais ansiedades. Te amo, estranho soaria se eu dissesse o contrário e quero tê-la a todos os segundos, minutos e horas do meu dia. Na impossibilidade, meu coração deve sorrir, afinal és dona de minha alma e na sua ausência canto a música que mais gosto, escrevo seu nome pela casa, estou pronto pra chuvas e trovoadas; para o sol, mesmo que seja noite. Acabo não tendo mais tempo e preocupação alguma, ser feliz me consome.

A MÚSICA QUE OUÇO


No exercício diário do ouvir, sons me chegam e invadem a minha imaginação.
Imagino Jobim tocando trompas angelicais enquanto vem chegando suavemente em meus ouvidos um cheiro forte de jazz em uma jam dos anos 30.
A música que ouço, entra blues e em um processo de liquidificação do espírito, se faz mambo, tango ou merengue.
Djavan sopra suave, passarinhando Nucci, que claudicantando me encanta, eu , por minha vez, apenas ouço e me renovo, sempre que a música troca a roupa de minha alma.
Sons de cigarra si, si, si, Zizi me chama, clama e reclama: há também o tempo de não ser só formiga, quem sabe Moska, Paulinho pulando por entre vagões, vagos antes do som, agora pleno de luz musical.
Nós por exemplo somos soul, alma negra, rock’n roll, boca aberta de stones que cantam , desejando ser Gil que embaianando Soweto, se fez Marley regado a dendê.
De Holanda a Catolé do Rocha ouço Chicos, que com ciência ainda batucam nos mangues de pernambuco.
Todas as músicas são boas, desde que realmente o sejam. Todos os sons se fazem musicais, desde que os ouvidos mudem de lugar e façam casa no espírito.
A música que ouço transcende os tímpanos e eriça os pelos em átmos de sensibilidade, transformando pau e corda em despertadores de emoção, vozes rasgadas em líricas celestiais e plugando amperes ao mais profundo dos sentires da alma.
Os dias passam e eu vou sampleando em uma colagem bem arranjada, pedaços de sons a pedaços de vida, fazendo-me pleno, inteiro e em um intertexto sartreano, a minha essência musical, teimosamente, precede a minha existência.

MAR DO TEMPO PERDIDO

O mundo está triste desde terça-feira passada. Passada a época dos caranguejos no lodo e do ruído insano da roda gigante quase vizinha. Me deu vontade de escrever tal como escreveria Garcia Marques sobre sua também insana Martinica.
O winzip condensado de tristezas reunidas ao longo do ano, pesou na nuca e ombros, enrijeceu todo a alma, existem massagens para tal. Se tristezas fossem frutos que se apodrecem e caem do “eu árvore”, hoje sou só folhas, com sorte, ainda não se fez inverno e eu seria alguns galhos vazios.
Não há do que se queixar, são as doidivanas dores mundanas, eu e mais um planeta inteiro as temos. O que realmente me traz pavor é que essas também doem em você, e, como dói o saber das dores que doem em você.
Não fosse sua candura, longe estaria o nosso amor, me traz um medo o saber que seus ombros possam ser mais rotos que os ombros do mundo...
Quem sabe não seria bom sairmos de biquínis roxos do mar do tempo perdido em choros e buscar espaços de voltar à vida. Quem sabe, para fins de dezembro, possamos estar nas águas do tesão absoluto de só e plenamente estar vivo ?
Por que não sou Garcia Marques para, fantasiosa e absurdamente, solucionar as coisas de lágrimas alheias ? Por exemplo, me mudar para o seu quintal, virar árvore e te prover de frutos tão doces que só fazem rir ? Exceto no inverno, em que você sempre se ajeita em mantas de amor próprio.
No inverno, eu despejaria os apodrecidos frutos, tomaria um Chateau qualquer e, pacientemente, aguardaria o momento certo de novamente lhe adoçar.
Por fim, o que nos resta é estarmos, e estando, compreender sempre que só faltam 6 meses e 11 dias de qualquer ano para a nossa morte, que tal viver ?
Um grande beijo, durma em paz, eu cá comigo lhe garanto, continuo produzindo, com o seu carinho, água e atenção, pra você os mais belos frutos e madeixas.

PRIMEIRO TRATADO SOBRE O OBSCURO (ou como diria Zagalo)

Tudo é obscuro, tudo é um grande enigma, aliás o que estou fazendo por aqui ? Meio que de passagem, vou tocando, vou levando. Meu grande enigma é a minha existência ! Quem determinou que eu havia de ser flamengo roxo ? Por que voto em Lula, gosto de cerveja, futebol e cachaça ? Obscuro é amar, obscuro é viver, nunca se sabe o que vem após a próxima esquina ou após o próximo beijo. Me arrisco, me atrevo, ousar lutar, ousar vencer ! Irrita-me a chamada telefônica que sempre traz vozes infantis que não se concluem, são mistérios, fazendo-me sentir 24 dias por hora, vigiado, enigmas. Será essa a nossa razão do estar aqui ? Pagando contas, ouvindo rocks, ingerindo tabacos e comendo maçãs argentinas ??? Essa força que me move, não me dá razões, enigma não sou eu, é a vida e, esta eu quero sempre e muito, resta saber se a recíproca é verdadeira... Me apresento e peço suas bençãos. Não sou do além, existo, longe de tudo que possa querer me anular, não me faço obscuro, me apresento, apareço, aguerrido, guerreiro... Mas ainda não sei bem o que faço por essa dimensão, para o momento, ser feliz me basta. Por vezes escrevo, por vezes me solto em letras, por vezes me faço enigma, charme puro, afinal não quero me fazer passar por algo inatingível, mesmo que as vezes necessite passar em brancas nuvens. O obscuro da vida me fascina, mas confesso, me mete medo e, nessa busca de todas as razões, me perco em mim, é que vezenquando o eterno me parece embaraçoso, mas é pra lá que estou indo é pra lá que me dirijo, e queira o eterno ou não, ele vai ter de me engolir. Em tempo: o número 13 não diz nada para mim. Enigmas...

COMO ERA GOSTOSO O NOSSO ALEMÃO

Houve uma, duas ou três vezes em que ouvi histórias de um outro mundo, de um outro tempo, a tosca calçada capistrana que nos servia de auditório, foi testemunha de passagens inesquecivelmente saudosas.
Havia rumores de que aquele gigante loiro chegando aos dois metros, teria sido um terrível nazista, comedor de criancinhas, (mas isso não era coisa de comunista ?). O processo de aproximação se fez lento e gradativo, éramos moleques de rua, jurando nada temer, mas ele nos causava uma certa inquietação, porém, suas maçãs rosadas no rosto, foram as reais responsáveis pela nossa simpatia e pela aproximação. Sabíamos ser de um país que atendia pelo nome de Alemanha, o que para nós parecia uma outra galáxia, só isso bastava para exacerbar nossa curiosidade.
Não era Fritz, Otto, Hans ou qualquer outros nomes alemães que conhecíamos assistindo filmes de guerra no velho cinema da cidade, atendia por um nome relativamente doce para um homenzarrão daquele, “Alec”, e o senhor Alec não conseguiu impor o seu epíteto àquela cidade, onde entre curiosidades, respeito e medo, todos só se referiam a ele como o “Alemão”.
Era raro sua presença pelas ruas, quando das quermesses ele se reservava em doar algumas prendas para as barraquinhas e trancava-se dentro de um enorme casarão parecendo querer evitar o vozerio festeiro das nossas tão divertidas festas. Bom brasileiro que somos, descobrimos ser o portão de Alec um perfeito gol para nossas “peladas” vespertinas.
Tinha realmente o formato de uma belo travessão com dois pilares nos servindo de traves. Ele nunca parecia se importar com o alvoroço incontrolável da molecada bem embaixo de sua janela, mas perdemos muitas bolas, apenas pelo medo de pedir a tão soturno morador que as devolvesse ao jogo.
Era um sábado iluminado pelo sempre lustroso sol das Minas Gerais e o jogo fazia-se esfuziante, eu em um chute, de quem nunca nasceu para brilhar dentro das quatro linhas, arremessei a bola para onde ela menos devia ter sido endereçada, barulhos de vidro quebrando-se seguidos de silêncio geral, nenhum menino se atreveu a manter-se a menos de 100 metros do desastre, devidamente escondidos aguardávamos algum sinal do alemão, de súbito, rompe o portão a imensa figura das bochechas rosadas, trazendo na mão um saco de linhagem apinhado de bolas e uma enorme botija de água, não sabíamos o que se passava pela cabeça de Alec, me enchi de coragem e decidi que iria enfrentá-lo no intuito de me desculpar pelo prejuízo da janela, me aproximei e notei que ele não tirou os olhos de mim e, antes que eu pronunciasse alguma palavra ele me ofereceu um copo de alumínio muito brilhante o qual segurei, até para não contrariá-lo e tomei, como que ingerisse um merecido veneno.
Outros meninos foram se aproximando e sorvendo da mesma caneca que eu, e, em uma química inexplicável, o seu olhar nos arrebatou todo o medo, ouvimos pela primeira a sua rouca voz, estranha, sua fala era carregada de ‘erres’ .
Alguns conselhos sobre pontaria no chute e algumas histórias sobre seu país e o futebol, do qual parecia ser fã. Devolveu-nos as bolas e voltou para a assombrada casa. A partir de então, todas as tardes, após a peleja que agora o tinha como platéia, tomávamos de sua água e sentávamos ao seu redor para ouvir as mais belas histórias, de outros mundos, de outras gentes, de outra galáxia.
Ainda hoje, com uns bons anos passados, ainda ouço em minhas lembranças, a sua rouca voz, cheinha de rrrrrrrrrrrrrrrr iniciando mais uma história:
__ ERRA UMA VEZ....

O VIOLONCELLO DE ALICE

Alice tinha um violoncello, no qual arpejava acordes belíssimos e de muito fino gosto, não era uma virtuose mas mantinha uma relação muito próxima com o seu instrumento e a música que ele produzia.
À medida que o tempo, ou seja lá qualquer outra força da natureza, mudava, mudavam também os sons de seu violoncello. Em dias frios e tristes, suas cordas pareciam bambear-se e seu canto era choroso, uma espécie de lamento.
Alice, nestes dias, corria-lhe o arco, com ímpeto, força e rapidez, tentando fazê-lo produzir o mesmo som dos dias claros. Era apenas um violoncello, mas parecia ter uma grande vontade própria, por mais que Alice tentasse, o seu som se fazia como o tempo, como o dia, frio e triste, ela por fim o compreendia e não lhe exigia folias em momentos um tanto fúnebres.
Em dias de sol, mesmo que triste agora estivesse Alice, o violoncello entoava sorridente e em alto e bom som, acordes do mais puro alegro, mais que andante. Mais que alegreto, parecia mesmo nem se importar com a morbidez estampada nos movimentos do arco de sua parceira, cantava por si, e ao final da primeira peça, entre alegros e alegretos, alegrava Alice.
Alice o cobria de bons tratos, entre óleos para madeiras nobres e um dedicado trocar de cordas, ela o mantinha sempre muito bem guardado em local seco e arejado e sempre muito bem vestido com a capa original de fábrica, pareciam mesmo se entender, mesmo com as mudanças de temperatura, de tons e humores, eles definitivamente se completavam. Eram Alice o o seu violoncello.
Certa feita, Alice seria alvo de uma platéia exigente e requintada que pagaria para se devanear aos sons produzidos pela dança do arco nas cordas tesas do belo violoncello, ela a condutora, ele o conduzido, uma sintonia perfeita, simbiose etérea, magia em que se completavam com a consciência de que um não aconteceria sem o outro, o tempo, ora o tempo, não há dilúvio que nos impeça de brilhar e, qual não foi a sua surpresa ao perceber uma tarde fria, triste, no dia em que seria o dia da grande prova publica de sua doce cumplicidade e talento junto àquele artefato de madeira.
Minutos antes, na solidão da coxia, eles se entreolharam, percebeu-se no ar que algo não sairia como se esperava, não mais havia tempo nem motivos para cancelamentos. Subiu ao palco e, frente ao alarido das palmas, ela o abraçou como que lhe dando força e carinho e, a platéia presente, atônita, jamais se esquecerá de tão belo, pungente e apaixonado concerto.Um belo violoncello, mesmo temperamental, soube escolher a hora.
Alice não mais existe, não se tem mais noticias do violoncello. Essas histórias ainda acontecem, não há mais quem as conte, podem estar escondidas em algum canto de uma preciosa orquestra, ou mesmo acontecendo na casa ao lado, mas não são maioria os que vêem e contam com os olhos e vozes que vem do coração.

ANTAGONIAS


Eu Campos, você Caeiro,
eu Lenine, você Ênia,
eu graça, você riso,
eu luz, você 'iluminada',
eu Sartre, você Werneck Sodré,
eu escada pra trocar lâmpadas, você ponta dos pés,
eu cobertor, você guarda-chuvas,
eu 'havaianas', você alpercatas,
eu trigo, você pão
eu um, você três ( e como são lindos ),
eu Folha, você Globo,
eu café, você mangas,
eu poeta, você musa,
eu letra, você música,
eu rouco, você seda,
eu linho, você linha,
eu violões, você ouvidos,
eu cuecas, você calcinhas,
eu terra, você água,
eu prestobarba, você ob,
eu homem, você mulher,
eu bonito, você mais
Eu pãe, você também,
eu supermercado, você também,
eu contas a pagar, você também,
eu giz, você idem,
eu quis... você também,
eu tentei... você também,
eu cedi... você também,
eu amei... você também,
eu estava enganado...você também,
eu solidão...você... longe.

DOIS BICUDOS SE BEIJAM


Você é feia quando acorda. Ou não seriam meus olhos ainda entreabertos e enevoados que ainda com sono, não se dão conta da sua real beleza?


Você é feio quando dorme. Ou não seria eu que, incompreensiva, não percebo o quanto a lida diária te desgasta?


Você é feia quando põe aquela roupa nas cores de bolo confeitado. Ou não seriam meus olhos que, momentaneamente, se esquecem de observar o recheio?


Você é feio quando grita tanto que me impede de dizer aquilo que quero. Ou não sou eu que, ainda que dizendo bem baixinho, lhe machuco e desespero fazendo-o perder o eixo?

Você é feia quando me toma horas ao telefone, só falando das agruras de seu trabalho. Ou não sou eu que, egoísta, esgotei minha paciência falando do meu?

Você é feio quando não me liga. Ou não sou eu a exigir mais e mais sem nunca me satisfazer com o tanto que lhe tenho?

Você é feia quando acende ainda mais um cigarro. Ou não seria eu a não saber aceitar seu ritmo?


Você é feio quando me apressa. Ou não serei eu a querer o mundo no meu lento e dolente compasso?

Você é feia quando briga comigo. Ou não sou eu a me esquecer de minha eterna intolerância e teimosia?

Você é feio quando briga comigo. Ou não sou eu a também esquecer minha eterna teimosia e meus incontáveis "nãos"?

Você é feia quando de mim se afasta. Ou não serei eu a empurrar-te com minhas ironias?

Você é feio quando o sinto distante. Ou sou eu a não entender sua necessidade de individualidade?

Você é feia quando de mim têm ciúmes. Ou não serei eu que, ignorando razões, não percebo aí, doses rompantes de carinho?

Você é feio quando comigo é irônico. Ou não sou eu que, afiada em retrucar, não percebo que você me devolve na mesma medida que recebe?

Você é feia quando, de malas nas mãos, tem de ir. Ou não fui eu que nem percebi que aqui você intensamente esteve?

Você é feio quando vou-me. Ou não sou eu que, triste em partir, penso que você deveria me segurar mais?

Você é feia quando se esquece de dizer "te amo". Qual foi mesmo a última vez que eu disse isso? Não me lembro.

Você é feio quando se esquece de dizer "te amo". Qual foi mesmo a última vez que eu disse isso? Também não me lembro.

Adilson e Lucia

CLARIVIDÊNCIA


No ano que vem fui à Grécia,

Vi telhados brancos no ano que vem.

No ano que vem contraí amor,

E encontro aí, dor.

No ano que vem quase contraio sífilis,

E em contra partida, ri.

No ano que vem abusei de alcoóis,

Foi por chegar aos 50.

E tudo isso foi no ano que vem.

No ano que vem fui ao Marrocos,

E senti o que me fez, Fez.

No ano que vem fiz-me, ou fizeram-me mal,

Não me lembro quem me fez ou porque me fiz.

Fui cool no ano que vem,

Yuppie já havia sido no ano seguinte.

No ano que vem estive on-line,

Perdoem-me pelo tempo que passei em off...

E tudo isso foi no ano que vem.

No ano que vem, provei sabores e cores,

Não deu foi tempo de provar rancores.

Beijei bocas salientes no ano que vem,

Não que isso eu tenha que salientar.

Andei olhando pro chão no ano que vem,

E fui achado por aquilo que procurava.

Assim, não uso mais jeans no ano que vem,

Foi-se o tempo da liberdade e uma calça velha.

E tudo isso, foi no ano que vem.

Ano que vem, pousaste sua cabeça em meu colo,

Já havia feito-me apaixonar no ano seguinte.

Dancei valsas no ano que vem,

Como não havia feito no ano seguinte.

Recolhi conchas marinhas no mar do ano que vem,

Elas me aguardavam desde o ano seguinte.

Li poemas e crônicas nos jornais do ano que vem,

Estas também me aguardaram desde o ano seguinte.

No ano que vem quase que fui feliz,

E isso tudo foi no ano que vem.

DE MUDANÇA

Hoje eu tenho um mote, estou de mudança, nunca soube ter tantas coisas até ver a quantidade de papelão feito caixas que já cobrem a parede enquanto 'aquele' armário não se esvazia. Hoje estou de mudança, os livros pesam e pô-los todos em uma única caixa seria uma covardia com os rapazes da empresa "Mudança Feliz". Os discos exigem cuidados, os vidros, nos quais eu costumo colocar bombons e flores, eu os embalo delicadamente em jornais que nunca li, mas sabia que guardá-los não seria em vão. Ainda não passei pela cozinha, banheiro, área de serviço e por um monte de lugares que me dão desânimo no pensar em desmontá-los.
Cuidei pra que meus quadros estivessem bem seguros, aqueles que pintei, que fazem sentir-me, Boticelli, as vezes Miró, Toulose e tantas outras vezes eu mesmo.
Tenho de guardar o filtro, tirar-lhe a água, bebê-la toda se possível for e embalá-lo como uma jóia preciosa, que o é, afinal ele me espanta os germes, se bem que existem germes bons e, ao remexer papéis achei, redescobri, escritos com letra feminina, redonda e miúdas, abarrotadas dos germes do amor, contraí, adoeci, febre alta de prazer, delírios de felicidade e claro, toda a loucura e lucidez que o bendito e micro cupido me traz.
Hoje estou de mudança, revejo você, enxergo-te, admiro-te e até te invejo. Tenho sim saudades do seu beijo, saudades do seu coração, que espero encontrar em meio a minha bagunça particular; o meu, sim o meu, que apesar de novo endereço ainda mora no mesmo lugar. O caminhão vai-se, o coração não muda, e tem endereço certo e definitivo, o meu coração fez do amor a sua casa e enquanto não se apresente uma ordem oficial de despejo, ele fica.
Se aí existe amor, é onde reside o meu coração.

DO BOI SÓ SE PERDE O BERRO

Desembarquei em Madrid sem luvas e, mesmo antes da burocracia oficial de qualquer aeroporto, minhas mãos foram mudando de cor, um roxo pastel foi rompendo pelas pontas dos dedos e me imobilizando de qualquer tentativa da mais simples movimentação fraterna como um aperto de mãos. Cravados 4 graus na terra de Salvador e, dali víamos uma névoa que cobria o tráfego intenso dos veículos na avenida Irarrazabal.
Eu e a Espanha, sou franco e francamente é um caso de amor antigo, não seria alguns graus abaixo dos de Copacabana que me desanimariam de vislumbrar os feitos de Gaudi.
Teresa nos recebeu, era só sorrisos, adentramos, agora já com luvas, em seu carro, pequeno mas funcional, seguimos por ruas que meu cansaço não me deu o prazer de observar, em casa, um apartamento singelo mas confortável, senti o calor de aquecedores a todo vapor, só então pude tirar o peso das lãs e me entregar a um banho merecido.
Na pequena sala não se falava em outra coisa que não fosse a "Corrida del toros" , essa coisa de touradas nunca me deu muito prazer, sempre tive a imagem de animais indefesos carregados de lanças ornadas de flores na extremidade, ima tremenda covardia.
Não me espantei que entre os meus apelos em ver Mirós e Picassos, venceu a tal tourada.
Alberto parecia uma criança, afinal foram horas de vôo e seu maior desejo era definitivamente assistir a esse massacre sangrento, em que é difícil saber quem na verdade é o animal irracional.
Eu, voto vencido, me vesti, sem esquecer as luvas, para o tal espetáculo de horror.
Durante todo o percurso, contava histórias de toureiros famosos, inclusive um certo avô seu, que mostravam sua bravura na areia das arenas. Eu já havia me convencido que seria um belo programa, ficariam os Mirós para o dia seguinte.
A frente do que parecia um estádio de futebol, não vi bandeiras do glorioso flamengo, mas, uma multidão de pessoas que, como Alberto torciam todas pelo mesmo time.
Cartazes anunciavam o grande confronto entre uma jovem promessa das arenas e um animal que havia sido treinado intensamente pra odiar humanos, tamanha prova de coragem.
Juan Pablo de Sevilha versus El Niegro, um macho de 500 kg portador de belos pares de chifres.
O público se fazia crescer, não era lá um Fla x Flu, mas, era prenúncio de casa cheia. Shows com palhaços iam nos distraindo até que seria o grande momento da noite. Um locutor anuncia em um espanhol galego o que seria o início do grande duelo.
Entra em campo um rapazote com roupas que pareciam não lhe deixar respirar, porém de uma muito extravagante elegância, acenou para o público movimentando uma espécie de chapéu que me lembraram aqueles que imitam as orelhas do Mickey comprados na Disney. A galera, enlouquecida gritava seu nome, me lembrei de Zico, este era o tal Juan, que até então eu não conseguia entender a troco de que, enfrentaria um trator chifrudo até saber que ao final da peleja aumentaria consubstancialmente sua fama e sua conta bancária.
O circo estava armado, mocinhas simulando desmaios e o tal Juan se preparando para a grande batalha.
Faltava ele, o coadjuvante, sem qual não haveria espetáculo. Soaram cornetas, trumpetes, trompas ou trombetas, sei lá, a adentra a arena deixando marcas na areia um animal enorme de pelo muito negro visivelmente assustado. Delírios gerais, o pobre animal, sem nada entender, se jogava em direção aos tapumes de madeira, em uma clara demonstração de desespero, naquele momento, tive pena e confesso, passei a torcer por ele.
Juan heroicamente, desenrola e chacoalha uma espécie de bandeira vermelha em direção à fera, El Niegro se atirava cegamente em sua direção e era driblado habilidosamente pelo misto de atleta e galã. A cada investida e drible, o touro parecia visivelmente mais irritado, com isso já fazia investidas por todos os lados, tendo o toureiro que chamar-lhe a atenção com o tal pano vermelho, seqüências de dribles elegantes, bem pensados mas, de fato muito perigosos. O público estava então em total êxtase com a humilhante superioridade da raça humana.
De onde não sei apareceram "contra-regras" com espadas reluzentes que, a medida que Juan ia desfechando golpes no pobre animal, cravando-lhe a lâmina na carne, iam-lhe lhe repondo o estoque de espadas, que para o meu já total desespero, não pareciam acabar, era um espetáculo que pra mim se fez de extremo mal gosto.
O animal já cambaleante e soltando urros de uma dor intensa, marcava a areia clara com a tinta vermelha de seus coágulos de sangue, motivos para mais delírios da platéia, eu não conseguia ver nenhum prazer naquilo, quis ir-me dali, não ser testemunha daquela barbárie, mas os meus, me impediram tentando me mostrar alguma graça naquilo tudo.
El Niegro, já não parecia aquela ameaça que a princípio aterrorizava, que se impunha. Era agora um fragmento do que se podia chamar de um puro sangue e, era sim puro sangue, seu negro pêlo, luzia agora o brilho vermelho do plasma que derramavam das feridas abertas, lhe tirando a força de manter-se em pé.
Em um último grito de agonia, deixou cair seus tantos quilos no centro da arena e uma cena dantesca, Juan o herói lhe desfechou o golpe de misericórdia.
Não vi comemorações, não vi nem mesmo como saímos da arena, a imagem que me ficou na memória, ainda hoje, me trouxe uma angústia e um desprezo enorme pelo ser humano, que se delicia com a dor.
Mais um animal morreu e dele tudo se aproveita, mas fica o berro, esse não se consome, ecoa em minha memória como um grito de apelo, como um fantasma. Nem Miró, Picasso e Dalí me trouxeram a beleza que fui buscar na querida Espanha, vislumbrei Gaudi, e o que vi foi que a raça humana sabe fazer coisas bem mais belas que negar que todas as espécies vivas, são filhos de único ser criador,mesmo pai, e que não se separa em espécies, não se classifica, não se destrói, aquilo e aqueles que ainda não aprendemos a entender.

ENTRE DOIS TEMPOS

Hoje me fragmentei
despedacei-me por própria invenção
Ouvi Deep Purple com João Gilberto
Child in Time com banquinho e violão
Estive criança em goiabeiras
em portas de escolas, enamorado
Pedi a benção e mandei à merda
Ando fuçando o passado
Tropicália em um clube da esquina
Tomzei-me nas montanhas gerais
Panis et circences com pão de queijo
Pedras capistranas, baianos coqueirais
Bombinhas juninas e alegres
Bombas militares em maio
Chico se construindo
Clementina, Drummond e Caio
Já não me lembro quem fui
Não imagino quem fui eu
Pedacinhos perdidos do passado
Na soma deu no que deu
Cadê a saudosa maloca
Cadê a maloca querida q
ue dindonde nóis passemo
dias feliz de nossas vida.

ENTRE UMA ESCOLHA E OUTRAS

Às sextas-feiras, sempre me sinto merecedor de boas novas. Gosto muito das sextas-feiras e suas noites sempre promissoras. Ajeito-me como posso pra tentar ir pra rua de maneira que a rua me mereça.
O ritual se inicia ainda antes do boa-noite, do aparo das unhas, caprichos no escanhoar dos pêlos indesejáveis, o banho, os cheiros e, ainda envolto na toalha azul, a terrível escolha dos paramentos que irão cobrir meu franzino corpo e minhas vergonhas.
O tempo voa entre uma escolha e outra, toca o telefone, todos já prontos e eu ainda revirando cômodas e guarda-roupas. Mesmo indeciso e apressado me dou o direito a uma pausa para melhor ouvir Chico de Holanda. O locutor da rádio local anuncia com sua voz imutável e quase sem nenhuma emoção a canção "Carolina", me dou o direito de sentar e perder um pouco de toda ansiedade, como se fosse aquele momento a véspera de minha morte.
Após tortuosa decisão, entre o vermelho clássico ou o branco esporte, me decidi pelo azul diário, já passam das dez, todos já se foram e eu, logo no primeiro pé de meia, sinto uma vontade enorme de ficar, minha casa sente saudades de mim, aquela almofada esquecida no canto da sala sequer se lembra do meu peso. Um bom vinho e fatias de provolone já me satisfazem.
A noite fervilha lá fora, dança-se, bebe-se e fuma-se muito, as casas enfumaçadas escondem rostos e disfarçam frustrações e amarguras, eu não me sinto amargo , definitivamente, não estou amargo, até porque hoje é sexta-feira.
Planejei o hoje durante toda a semana e tudo saiu às avessas. Mantenho-me sereno, sentado em minha velha almofada ainda com as vestes que me levariam ao crime, sinto-me calmo, o vinho me aquece e agora incondicionalmente o Chico de Holanda me faz companhia. Entre uma escolha e outra, optei por me fazer companhia, afinal hoje é sexta-feira.

sábado, 22 de setembro de 2007

ESCRITOS PARA QUEM ESTÁ TRISTE

Cássia Eller é um bom começo, aquilo era só alegria, ou quem sabe o Nando, apesar de haver momentos em que ele nos faz lembrar momentos, aliás tem tristeza nisso ? Já lhe disse que ouvi um tal de " Eternizar os momentos bons" nem sei se é com ésse ou com zê, mas tenho aprendido isso, dá pra fazer uma forcinha"?
Bom é BH, feiras e mercados, calor pra mim, temperatura em declínio pra você, aqui sim nos completamos, na velha Contagem, mas vez por outra esta viagem não cabe nos planos, fazer o que ? Eternizar momentos bons, não tenho lá muito mais a oferecer, minto, tenho amor, serve ?
E ele viaja, transfigura-se, se remete, entende as dimensões, e distância para o amor é algo alcançável, tudo é transcendental, tempo e distância são merda, isso, merda diante a força desse sentimento maluco que suporta tantas horas em poltronas desconfortáveis de ônibus, em tempo, aqui tem aeroporto.
Ficar triste é estado de espírito, espírito de porco, qual é ? O riso tá aí solto e é "de grátis", solto e nem precisa de motivos, o que falta é vontade e coragem pra rir nas contradições, nas armadilhas do danadinho do destino, ou você vai continuar aí pintando as unhas sob lágrimas ?
Bom é estar vivo e manter nossos porquinhos alimentados, o meu guloso vai dar um belo pernil.
Tristeza pra mim é queimar o arroz com a casa cheia de convidados para o almoço, três da tarde a fome a mil e você, bom cozinheiro, apressar-se em dar a notícia que o frango não terá uma guarnição, quer tristeza maior que essa ?
Eu se fosse você, ia e seguia em paz, a não ser que não estejas sentindo o amor aí, "garradim", teimoso e enchendo o seu coração. Larga de ser besta, deixa ele, o amor, te mostrar que existem muito mais coisas além dos vãos feriados sem beijos.
Agora é contigo.

EU E A MINHA BARBA

Segundo andar, mas aqui é alto, o que eu vejo ? Não vejo o que quero, roço a barba e penso em amor ! O que seria isso ? Nunca soube lidar com esse "trem" , aliás, em tempo, acabo de perder um, como tantos outros, estou ficando especialista nisso....
Aqui venta muito, bom, gosto do vento, resta saber o que ele me traz, de novo repenso minha dor, dor de amor, ouvir o Vercillo é loucura, até porque choro e sofro, não é bem isso que quero agora. Aviões pousam alí, parece perto, sei de distâncias, também sou especialista nisso.
Roço novamente a barba, é o que eu tenho, e penso, já não agüento mais pensar. Onde o amor faz divisa com a razão, Vercillo ? É, e eu aqui tentando entender-me , dá uma vontade de nunca mais...
Não é essa a história, não sou cronista nem irônico, só tento entender porque o amor insiste em se afastar de mim, erro eu ou não me faço entender... ?
Vou mudar de vida, vou mudar de posturas, mas quero tentar de novo não, eu aqui, com a minha barba e minha dor , acabei descobrindo o torto que sou, mas peraí, todo mundo erra.
Não vou carregar definitivamente, os pecados do mundo, vontade de seguir pela vida e me sentir normal, acho que não nasci pra coisa, estar só, me apraz.
Meu planeta não é esse aqui, estou de passagem, sabe o Deus de que tanto falam, inda acho felicidade.
Deve estar aqui dentro, a minha felicidade. Tenho dado , tenho me dado, e acreditem ou não, foi pouco, ou foi posto de forma errônea , fazer o que ? Sou Adilson e isso ninguém me tira...
Tenho de encerrar isso aqui, falar em dores não é minha especialidade, das minhas eu sei, já disse o cronista. Vou abrir uma cerveja e comemorar mais um fracasso, ou quem sabe, brindar à intenção de ser e fazer outro feliz.
Roço minha barba e me pego com sono, afinal o melhor a fazer é dormir, mas antes repito em alto e bom som : CONFESSO QUE AMEI.

O FANTASMA NOSSO DE CADA DIA

Tenho tantos e poucos anos e, trago pra cada dia vivido um fantasma em especial.
Fantasmas são muitos, sempre soube fórmulas e antídotos pra afastá-los.
Fantasmas de prováveis dores;
Fantasmas de fins de amores;
Fantasmas de rebaixamento do meu time;
Fantasmas do desemprego, do destino, do futuro e da provável imensa conta de telefone por chegar.
Fantasmas, fantasmas, fantasmas...
Fantasmas na bolsa de valores, BUUUUU OU BUSH ?
Há também os fantasmas camaradas, aqueles que como o velho Gaspar (zinho, foi na minha infância), vez por outra se metem a anjo da guarda. Estes na verdade buscam te guardar, te proteger, mas usam de métodos tão poucos convencionais que quase sempre nos apavoram com suas possíveis aparições.
No vigésimo segundo andar, onde trabalho, me assusta o fantasma da entrada voluntária de aviões sob o comando de Laden.
Me assusta o fantasma da solidão, da morte, da disputa nos penaltys, do gol perdido...
Fantasma do pai que já se foi e que sei me vigia diariamente.
Quanto aos fantasmas do "além", já que venho apenas fazendo menção aos dessa dimensão, não deixo que eles me incomodem, mesmo que vez por outra os ouça fuçando pelo quarto ou até mesmo os veja no casaco pendurado por detrás da porta, velas acesas e saravás.
Já tive a oportunidade de trocar alguns colóquios com essas sombras voadoras, pedi notícias do lado de lá, confesso não foram animadoras, como se não bastasse o uso obrigatório do modelito branco em forma de lençol, soube não haver chopp gelado, caldo verde e música ao vivo. Hoje enquanto ainda por aqui, até tenho caprichado na gorjeta, mesmo mediante a uns tais dez por cento estampado no cardápio, com certeza esta dimensão ainda me é bem mais prazerosa.
Não vejo lá muita graça em passar os dias e noites em eternos BUSSS, cobrando dívidas passadas ou apenas se deliciando com o medo alheio do pavor do indecifrável.
Passo os meus dias, dos meus tantos e poucos anos, convivendo com sombras, medo ? Aprendi a driblá-los com o desprezo que me é típico, afinal tenho mais o que fazer do que ficar me esperneando em preocupações com tais aparições, velas acesas e saravás, até porque os respeito e não quero permitir que façam da minha já tão ocupada cabeça, sala de estar pra recreio de almas penadas.
Tenho tido paz, e meus fantasmas são bem terrenos e reais e, por sê-los há sempre a chance de afastá-los, mesmo que pra isso seja necessário adquirir outros, como por exemplo, o fantasma do cheque especial.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

FARSA POÉTICA


Em eternas procuras no mundo dos sonhos, das palavras fáceis, da boa rima e das tantas filosofias, me vi enganado ou não soube ir à fonte.
Quando em Caetano procurei nas franjas da encosta, alegria, alegria, quase tive de gritar que é proibido proibir. Andando a toa pelas ruas de Lisboa, procurei o poeta em Pessoa pra dele arrancar qual o tamanho da alma pra que tudo valha a pena. Em Chico busco a medida do Bonfim e nem consigo achar a veia por onde meu sangue se perdeu.
— Garcia, pra que lado fica Macondo ?
— Quintana, onde estás se não estás aqui ?
— Carlos, não encontro a melodia, a paisagem, a transparência da vida e continuo perdido na sua concha ultramarina.
Me atrevo a inquirir o poetinha, onde está o infinito, preciso achá-lo, pelo menos enquanto dure.
À Lennon e MacCartney, pedi Help, enviaram um recado por Julia em um inglês mal educado: "In agreement brother, the dream ended !"
Nereci se perdeu nos oceanos de Djavan, clamo pelo auxílio de Milton pra que me mostre em que direção se dá a travessia.
Me refazendo como o bom baiano ministro, tento aprender a magia de cultivar tomates e colher mamões.
Até tu Caio ? Não me ensinaste a pentear pensamentos matinais; de ti só tive pequenas epifanias.
Corri listas de anjos, caronas sublimes em suas asas, de A a Z, Adrianas, Albertos, Alberts, Argentos, Betos, Brunos, Ivones, Josys, Julias, Kricas, Lucias e Lulas, etc... Tudo um grande engano, todas as palavras, inclusive muitas que saíram de minha boca, nada mais foram que doces e poéticas mentiras.
É como procurar no Delta do Mississipi aquela perdida canção blue, não me arrisco mais, nessa idade, a comprar e acreditar em sonhos alheios. Que a minha procura de tudo, me leve única e estritamente, ao encontro de mim.

A FRAGILIDADE DE SER E DE SER

O triste episódio que envolveu o músico Herbert Vianna, nos remete a um repensar sobre a fragilidade da vida.
Somos um emaranhado de neurônios, ossos e artérias envolvidos em uma muito bem acabada estrutura de tecidos que formam o que chamamos de corpo físico. Todo esse arranjo não foi, com certeza, concebido para receber pancadas e uma série de outras violências que muitas vezes nos são fatais.
Por mais zelosos que possamos ser com o nosso corpo, nunca poderemos imaginar, e nem evitar, que um boeing nos caia sobre a cabeça em uma bela tarde de primavera, o que seria um estrago sem precedentes para essa máquina tão perfeita (o corpo, não o Boeing). Sendo assim, o que realmente resta a fazer é nos voltarmos para o momento presente e vivê-lo intensamente.
Em recente pesquisa, organizada por um grupo de psicólogos ingleses, concluiu-se que um ser humano normal, passa em média 75% de sua vida pensando no seu passado, se arrependendo do que fez, do que deixou de fazer e torcendo pela invenção da "máquina do tempo" pra começar tudo de novo. 20% passa-se planejando o futuro, sonhando com dias melhores, com muito dinheiro no bolso e saúde pra dar e vender, ou seja, apenas 5% de nossa vida destinamos a viver o presente.
Aviões na cabeça à parte, o fato é que deveríamos passar os nossos dias imaginando-os sempre como se estivéssemos à véspera de nossa morte, quem sabe assim não exercitaríamos mais o dom do perdão, da compreensão, da solidariedade e do amor.
Lucy se foi, lamentável, Herbert, ainda não se sabe bem sobre seu futuro.
E aí ? Tiramos desse funesto episódio alguma lição ?
Ser feliz é uma questão de opção, viva intensamente o seu momento presente, o que passou, passou, e o que virá, quem viver verá.
Saúde e paz, o resto a gente corre atrás ( obrigado Pedro Bial ).

HÁ MAR


Quando caminhas pela areia, és observada por olhos, ora verdes, ora azuis, uma visão, um privilégio, uma insinuação. Gelo quebrado, resistência vencida, se entrega aos poucos e és acariciada. Embaraçar de pernas e lânguidos e constantes vais e vens que lambem deliciosamente toda extensão de seu corpo. Você se deixa levar, mergulha por inteiro nessa aventura, és tomada, és domada, possuída e envolta naquelas carícias; orgasmos precoces, fugazes e fatais. Retomas à mesma areia, ao mesmo passo, e como que realizada, não consegues esconder uma satisfação que parece tamanha... Não tinha de ser assim mas, inevitavelmente, mordo-me de ciúmes do mar.

HISTORINHA PARA ONÇA DORMIR

Fazia tempo eu não via o mar. Ontem caminhei pela praia, pisando a areia, pulando marolas, sentindo o sol na pele e estando feliz.
Continuo não acreditando na imensidão daquilo, é um universo azul, vivo, molhado e em constante movimento. Fascínio e medo se misturam com uma incontrolável paz que aquela visão me traz, o mar , belo e indomável, será fato que foi de lá que eu, você e todos os seres sem escamas viemos ?
Ontem estive pisando em brilhos e acabei por compor um Hai Kai, não, engano meu, pensar que tudo aquilo universalmente grande e bonito, era tudo de lindo que eu via e tinha !
Ontem caminhei pela praia, pisei em luzes, flashs luminosos e, mesmo com todo encantamento, o brilho da imagem em movimento não ofuscou a imagem da presença tua, que, comigo deixou rastros breves na areia. Diante de uma porção tão generosa de água, deixei que minha alma fosse lavada por ti.
Além de toda a grandiosidade do encontro do sol com a verde água do atlântico, no embate do encontro o reflexo que vi foi você, além de tudo havia você.

SÍNDROME DE HOMEM ARANHA

Uma de minhas fobias é a altura, tremo só de pensar em estar, por exemplo, em cima de um telhado; sempre deixei as antenas se ajeitarem ao sabor dos ventos. Preciso sentir o solo, o chão bem quietinho sob meus pés, talvez por isso telhados tanto me fascinam.
Quem sabe uma boa terapia não me levaria às alturas? Enfrentar o medo pode ser uma boa opção (teórica), mas realmente não faz parte de meus planos.
O que se vê lá de cima? As cores são diferentes, pode-se tocar as nuvens como em algodões doces, ou só se vê outros telhados ?
Em cima do telhado, além de gatos, caixas d’água e antenas, nada mais se encaixa, principalmente humanos como eu, é certo que vislumbra-se o quintal do vizinho, um pouco da intimidade alheia (hoje tão em moda) ou quem sabe o cume da chaminé da fábrica. Porém essas visões não me atraem, ando até pensando em investir no cometimento de pecados para não ter de ir para o céu (lá é muito alto), ou quem sabe em sua sabedoria, Deus não reserve para mim um paraíso sem escadas, de preferência ao nível do mar.
Segundo alguns músicos, compõe-se melhor em cima de telhados, há silêncio em cima dos telhados, mas tenho comigo que o mundo de lá é o mesmo daqui debaixo, ou quem sabe de lá não se vê a fome, a miséria, a violência ou ainda se tenha a impressão de se estar sempre acima da inflação?
Sei não, prefiro cruzar a todos os momentos no chão, nas esquinas, com os males do mundo, afinal é quase sempre inevitável fugir da realidade, seja lá a que altura estivermos.
Enquanto eu não for eleito o responsável por acender a lua, permaneço aqui embaixo, vendo as horas e contemplando os meus horizontes, que não deixo, por estar no chão, que sejam parcos e limitados, afinal, inda que sob telhados, sonho.

A COINCIDÊNCIA DAS HORAS

Ainda não eram três horas ( ou quinze como queiram ), Ju se agitava pela casa, entre troca de vestido , blusas e colares que combinassem. Ao passo que ia falando, secava desesperadamente o cabelo e ia ao mesmo tempo experimentando todas as alternativas que o seu guarda-roupas permitia.___ Calma Ju, a entrevista é as cinco.
___ Ah neim, não gostei desse batom, nada a ver com a saia...
___ Ju, você tá linda !
___ O que você acha daquele vestido preto de alças,
___ Você é quem sabe, gostei dessa saia com essa blusa, impressiona,
___ Jura ?
___ Claro neguinha, tá um charme,
___ Então escolha você esse, ou aquele colar ?
___ Prefiro este mais discreto, não chama tanto atenção;
___ O que você quer dizer com isso ?
___ Na boa, aquele ali é meio perua !
___ Meu Deus, 15 para a três, como eu estou ?
___ Cheirosa e bela, vai dar tudo cerro meu amor.
___ Será que tenho alguma chance ?
___ Todas Ju, além de linda, você é competente, dá um beijo aqui ...
___ smackkkk, tô atrasada, caramba três hora, fui.
E lá se foi minha linda para o que seria o passaporte para o seu futuro, empresa grande, salário promissor, etc, etc...
___ Você me empresta o carro ?
___ Toma a chave aqui, juízo, e tenha tranqüilidade tudo vai dar certo, beijos...
Eu fingindo não estar ansioso, torcia por ela, a boca era boa. Possíveis chances de gerência, na sua área, certo que essas entrevistas com executivos não nos prometem muita coisa, mas conhecia a fera, quando desandasse a falar , convenceria qualquer doutor, já me fez comprar uma cota de clube que ainda nem existia, me garantindo que era um grande investimento, estou esperando até hoje.De folga, deitei após umas cervejas e dormi, isso era uma terça-feira de abril, e eu, com a certeza de um grande resultado da tal entrevista de Ju, dormi o sono dos justos.
Tinha um bom carro, daqueles modelos onde a maioria dos controles não passava do apertar de botões, Ju era uma excelente motorista, apesar de eu nunca ter admitido isso em sua presença, estava tranqüilo, um dia como outro qualquer, a não ser pela certeza de que o emprego de minha doce amada estava praticamente garantido.
Seis da tarde, nada, sabia que independente do resultado da fatídica entrevista, eu seria o primeiro a saber, acordado agora, de olho no telefone, aguardava notícias, liguei a tv, liguei o som. Liguei o microondas e adentramos as sete horas, comecei a me preocupar. O primeiro pensamento que me veio à cabeça foi que tudo deu errado e a danadinha lamentava inconsolável em algum banco da orla.Sete e trinta, toca o telefone, é ela
___ Oi amor o que houve ?
___ Boa Noite, sargento Carlos, senhor um sério acidente com o veículo em seu nome, o condutor se encontra hospitalizado no centro..................... já não ouvia coisa com coisa e aos trancos me troquei e me dirigi às pressas ao hospital indicado.
___ Calma neguinha, você vai sair dessa !
Dela nada ouvi.
___ Não fala nada agora não, tô aqui do seu lado.
Ju foi encaminhada a uma sala de cirurgia, onde tentariam, mesmo que por milagre, lhe devolver a vida.Permaneci sereno, sentado em um banco frio do Pronto Socorro, parentes foram chegando, eu sinceramente não me animava à comentários.
A noite adentrou, eu tinhas fome, tinha sede, tinha medo e, claro tinha esperança de que aquilo acabasse logo.
As madrugadas em hospitais são sinistras, chegam casos absurdos, acidentes mil, aquilo me trazia uma enorme agonia.
As três horas da manhã, me anunciaram a morte de Juliana.
Hoje quando me pego quase que por instinto olhando o relógio e vendo os ponteiros nesse terrível ângulo de 45 graus, me atordôo, me pego assustado.
As três horas de um mês de abril, havia perdido um pedaço de mim.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

INVENTÁRIO DE DORES

Dores, penso que todas possíveis já provei, as de amores, de saudade, solidão e de dente. As das derrotas do meu time, da ausência, perda daquele parente que me viu crescer, a topada no pé da cama, a de cotovelo, a dor de ver a dor alheia e todas as outras que, quando doem não se sabe bem porque, por isso elas não têm nomes.
Passíveis somos destes apertos nos peito, e por vezes até os pré- programamos, como se houvesse algum prazer em ficar chorosos pelos cantos, abraçando almofadas.
Existem dores que doem e as que ardem, não confundi-las. O Merthiolate no ralado do joelho arde, um NÃO quando mais se precisa de um sim dói.
Existem as dores profundas e as superficiais. O dente quando resolve, é profundo, já a saudade, é dor rasa, porém não há dentista que dê jeito.
Há dores que podem ser vistas (até sem radiografia), já outras são invisíveis, como aquelas que tem lugar na alma.
Há as que podem ser ouvidas em diversas formas de "ais" , e existem aquelas que preferem se esconder no silêncio.
Não sou um especialista em dores, das minhas eu sei, e para a grande maioria conheço o antídoto. Exemplos:
Dente = Dentista
Saudade = Aeroporto, Rodoviária, de trem, metrô ou a pé;
Ausência = Um cheiro;
Solidão = Música;
Morte = Fé;
Cotovelo = Trabalho e conquistas;
Topada = Beijo, gelo e carinho;
Dor de amor = Para esta eu recomendo ficar quietinho que passa.
Conheci dores que tive a sorte de nunca tê-las tido, que para as quais ainda não inventaram remédio que dê jeito, sei que existem amores e pessoas insubstituíveis, e que na ausência destas, se definha, se consome, se morre. São dores tão dolorosas que metem muito medo, assim como o fantasma da perda.
Meu sábio pai sempre dizia, "para tudo nesta vida há remédio" , concordo, mas acrescento que é necessário que se procure a farmácia certa, aquela que tem todas as poções e antídotos, funciona 24 horas, só não entrega a domicílio, até porque o seu domicílio, está aí ó, bem dentro do coração.
Amar, definitivamente, é o melhor remédio.
03.10.01
Dia de nascimento de Téo.

PRA QUE SERVE UMA JANELA


Os motivos que me levam à janela, nem sempre se referem à bela vista que dela tenho, dos aviões pousando ao longe, de um pequeno trecho de uma rodovia que me traz boas lembranças, das coberturas aristocráticas e suntuosas, parabólicas sempre antenadas, um pôr de sol invejável e da chuva que, quando cai, vista de minha janela, não sei bem porque, me enche de paz.
Tenho vindo à janela agora, em momentos de angústia, me sento no velho banco encostado ao para-peito encardido de outros braços e não vejo além de minhas dores e dúvidas.
Estou no segundo andar de um edifício e quase no último de minhas neuroses, o vento sopra frio e forte, balançando os pêlos eriçados de minha atordoada alma, as parabólicas aguardam calmamente que eu lhes envie sinais e confidências, mas quase não sei de mim, sou só apenas mais um homem sentado à janela, e pela janela dos meus olhos, atravesso a ferrugem das grades e, em uma reação adversa, não saio de mim, não vejo os aviões, a rodovia e as coberturas; é que fui acometido por uma tempestade interna.
De que me serve uma janela se meus olhos não conseguem olhar além de mim?Quando por ventura o vento que sopra incessante, levar para bem longe as minhas negras nuvens, volto meus olhares para além dos limites de minhas grades e para bem longe da ferrugem dos meus dias, volto a ver o que de real existe no mundo lá fora e, como que emoldurado pela minha janela, vislumbro o sol, a noite e a vida, viajando em sonhos por sobre aeroportos e rodovias, pegando caronas em nuvens que me levem para muito além de mim.

O PRIMEIRO DIA DO HORÁRIO DE VERÃO EM UMA ESQUINA DO LEBLON

Os olhares se cruzaram acendendo pronta e rapidamente algo forte, incandescente, que podia ser visto a olhos nus; um brilho inexplicável, um breve tremor de pernas, uma sensação incomparável de vontade e desejo, turbilhão de pensares.
Passou por ele em uma esquina do Leblon o que poderia ser chamado de ‘anjo’. Fitou-a, estacionou seus olhos nos olhos dela e, o que lhe pareceu uma eternidade, foram poucos segundos de deleite e prazer, foi completamente retribuído, os olhos dela pareciam tentar olhar sua alma.
Se afastaram e incomodamente se perderam de vista, tinham destinos diferentes, ela bailarina, ele com seus computadores.
As boas imagens sempre ficam em boas lembranças. Ele era um sujeito bonitão, aos seus olhos, fazia-lhe o tipo, entre sapatilhas e malhas, guardava também a intensidade daquele olhar. Ingenuamente , desejou-o, mas rapidamente tirou essa possibilidade da memória frente a impossibilidade de uma nova aparição. Recostou-se sobre as tantas almofadas de sua cama e temeu pesarosamente o nunca mais. Naquele momento amou, e viu uma vida que ia muito além da ribalta.
Na tela do computador desligado não via o reflexo de seu rosto, procurava pelo rosto que, como um vírus, instalou-se em sua memória. De onde surgiu aquela beldade, aquela era o seu modelo de mulher. Por onde ela se escondeu durante todo esse seu tempo de existência, deveria tê-la conhecido no berçário da maternidade e quem sabe nos momentos do choro coletivo, consolá-la com um sorriso ou o mesmo cruzar de olhares.
É possível que ela goste de computadores, é possível que ela goste de quem goste de computadores, é possível que ela admire, é possível que ela ame, e é provável que ele nunca mais a veja.
Como se voltar à mesma esquina do Leblon fosse o antídoto de sua ansiedade, apressou-se no pouco tempo que lhe restava, cronometrando os minutos para provocar sua chegada no mesmo horário do dia anterior, a primeira vez.
Sol claro, 17:00 h do primeiro dia do horário de verão. Plantou-se decididamente no mesmo ponto e se fez aguardar.
Ela detestava os ônibus, o trânsito e o calor daquele primeiro dia do horário de verão.
Havia calculado mal, com a lentidão em que os carros se deslocavam pela longa avenida, provavelmente não chegaria até as cinco em uma certa esquina do Leblon.
As horas passavam como nuvens, 17:05, 17:08, 17:10, era prudente que ele se mantivesse ali mais um pouco e um pouco mais calmo. Ela viria pela Delfim Moreira e dobraria, como que flutuando a esquina, afinal, mulheres sempre se atrasam, repetia isso como se realmente estivesse com um encontro marcado.
Uma passeata era o motivo do não andar do trânsito, pelo enorme pára-brisas do coletivo só se via faixas e cartazes que movimentavam ao som de palavras de ordem.
___ Hoje não, qualquer dia para reivindicações trabalhistas, mas hoje não, porque o comando de greve não me consultou ? Preciso estar com urgência em uma certa esquina do Leblon.
17:30 h. Seria mesmo inútil continuar ali parado, o coração diminuiu de tamanho, a esperança também murchou. Ele como que não acreditando em mais essa ironia do destino, caminhou lentamente em sentido contrário ao da esquina, ainda olhou para trás algumas tantas vezes. Acabara de perder um amor sem nem ter dito , eu te amo, em uma certa esquina do Leblon.
17:30 h. Agora o trânsito fluía e ela sentada em um banco de ônibus, detestando grevistas em passeatas, quase próximo à fatídica esquina, olhou pela encardida janela e optou por não descer, não fazia mais sentido. O tempo não para e não abriu para ela uma exceção . Mudou de pensar e fez a opção do esquecimento. Quase foi feliz, acabara de perder um amor sem nem mesmo ter dito, eu te amo em uma certa esquina do Leblon.

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Crônicas de dores passíveis
Crônicas de amores possíveis
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