quarta-feira, 27 de maio de 2009

ODE AOS VADIOS E PEDINTES

Fernando Pessoa na rua da Baixa
Não sinto, mas sou capaz de escrever a dor alheia, por vezes a imagino, o que para um pretenso poeta que não sou, não se trata de infame sadismo, afinal, alguém teria de descrever as dores do mundo, me encargo desse fardo, até porque nem parvo sou.
Pessoa, Oh Fernando belíssimo Pessoa, como a pequenez dos pobres, tristes e invejosos homens trazem em seu cerne a fingida ingenuidade “anônima”, destes sim, tenho pena, sinto muita pena, como a ti de seu vadio e pedinte em uma rua da baixa.
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado, (e romantismo, sim, mas devagar...), mas, mais que nunca, amo e sou amado, mesmo que isso incomode mais a pedintes do que a vadios.
Quanta pena e decepção do flagelo dos tão conhecidos “anônimos”.

terça-feira, 26 de maio de 2009

DOIS PRA LÁ, DOIS PRA CÁ.

Queria dividir com alguém meus dias; alguém que como eu ouvisse sempre com espanto as flautas do Ian Anderson, que comesse pão na frigideira, que morresse de rir de piadinhas infames, assistisse a programas de entrevistas, odiasse gente que se mete a cuidar de nossas vidas, gente que se apagou pro mundo, gente que fala alto em lugares públicos e atende ao celular em locais impróprios.
Queria dividir com alguém meus dias, sejam eles de inverno, até porque são muito bonitos, queria dividir com alguém o meu sofrimento em filas, minha angústia com as desigualdades sociais, as derrotas do Flamengo e meu creme dental.
Seria muito bom dividir com alguém aquele último pedaço de bolo, aquela última ponta de esperança, aquelas manias que até então eram só minhas, e porque não minha cama e cobertor.
Quero dividir com alguém as emoções daquele show do Lenine, a gostosa leitura de um livro e as impressões sobre aquele filme do Almodovar.
Queria dividir com alguém essa ânsia de um mundo melhor, o cuidado com o meio ambiente e a alegria de uma manhã de sábado e de sol a comprar comestíveis de cor verde.
Como seria bom dividir com alguém preliminares e orgasmos...
Não sei se alguém me aturaria em minhas badtrips, mas queria poder dividi-las com alguém, queria contar com alguém, a qualquer momento e em qualquer lugar, pedindo palpites, dinheiro, conselhos e colo.
Quero dividir com alguém meus medos, altura, água fria, elevador, pitt bull e meu inventário de cicatrizes.
Já quis dividir com outro alguém o meu prazer naquilo que faço, já quis dividir com outro alguém as coisas que escrevo e até quis dividir com esse mesmo outro alguém um delicado e possível romance, foi difícil a partilha.
Hoje, decididamente, eu quero dividir com alguém minha conta bancária, minha paixão pelas crianças e animais e os palpites nos jogos de marcar números.
Hoje, também e definitivamente eu queria poder dividir com alguém todas as minhas dores, as do corpo e as da alma.
Poderia ser pra amanhã, mas eu ainda iria querer dividir com alguém esse tanto que ainda resta de mim, o que me coube e sobrou de tantas outras divisões.
Ainda penso que das sobras, sobrou um tanto assim de tempo, pra quem sabe dividir os meus últimos “subir e descer” de escadas e de humor.
Quero dividir com alguém nosso inevitável envelhecimento e nossa coragem de ainda assim nos amarmos.
Quero dividir tudo o que de bom eu tenho e que não deve ficar se enchendo de mofo nas gavetas do egoísmo.
Amor se divide e não deve ser lá muito bom, não deixar alguém chorando, porque até a morte se divide.
Que eu tenha tempo pra tantos desejos e partilhas.

terça-feira, 19 de maio de 2009

A CADA UM, O INFERNO QUE MEREÇA!


É provável que haja sim,
alguma relação com o inverno;
Vem do frio, vem do nada,
e viver se torna um inferno.

Nesta estação não veio mansa;
martiriza, dilacera;
novos velhos ventos vindos;
bem igual ao que dantes era.

Nas vagas das horas vãs
me recolho e não me entendo;
dei-me tanto em formas vis
e hoje me pego doendo...

Quão cíclico é estar vivo ...

sexta-feira, 15 de maio de 2009

GUARDADAS AS DEVIDAS PROPORÇÕES










Pra quem tem ou se aproxima da minha idade, o que aliás não a tornarei pública e é por pura vaidade mesmo, ficam lembranças bem interessantes dos tantos anos já vividos, e destas, as que, eu por exemplo, mais recordo com prazer são aquelas de coisas simples, bem simples mas que em determinado momento e contexto, fizeram toda a diferença. Alguém aí se lembra das balas soft (aquela que engasgava criancinhas), não pelo fato de entupir laringes infantis, mas por que eram boas mesmo.
Ando tentando em uma busca desenfreada comparar o prazer do amor com os prazeres simples e deliciosos da vida, se é que amor se compara a algo, mas por mera distração, tentei elencar coisas que me deram infinita alegria, quase perto daquela que sinto ao ter e dar amor a uma especial e exclusivíssima pessoa, então vamos lá:

Maria Lucia Padilha nunca me fez engasgar como as já citadas balas, mas amá-la e tê-la é de uma infinita doçura;
Maria Lucia Padilha não se parece com uma fita K7 Basf novinha, onde eu gravava meus rocks, mas amá-la e tê-la é ouvir mesmo que dormindo, Robert Plant em Going to Califórnia;
Maria Lucia Padilha não tem muito haver com a menininha das tirinhas “Amar é...”, até porque ela já é o próprio significado do verbo;

Maria Lucia não se compara àquela taça de “banana split”, até porque e muito antes pelo contrário, amá-la e tê-la eleva acintosamente a minha temperatura;
Maria Lucia não pode ser comparada ao Flamengo de 81, mas amá-la e tê-la é a certeza de domingos de muita alegria;
Maria Lucia não é uma tarde de sábado no programa do Chacrinha, amá-la e tê-la, bem sei e conjecturo é bem melhor que a própria Teresinha.

Lucia me lembra roupa nova de ir a missa, bonita, cheirosa e brilhante, que dá uma vontade de mostrar pra todo mundo e se levanta o nariz com excessivo orgulho;
Lucia é livro e caderno novo em fevereiro, que se encapa com carinho pra durar pro resto da vida;
Lucia é parque de diversões e amá-la e tê-la e tão emocionante como os recadinhos carinhosos do serviço de auto-falante.
Lu é a casquinha do sorvete que se come até o fim;
Lu é boletim todo azul em dezembro;
Um jeans velho, azul e desbotado;
Acampamento de última hora;
Caixa de lápis com 24 cores;
Picolé de goiaba na praia;
Vento forte nos cabelos;
Peixe beliscando a isca;
Água fria de cachoeira;
Tênis que não aperta;
Visita de padrinho;
Presente de Natal;
Lençóis brancos;
Bolas de gude;
Pés descalços;
Cama macia;
Chuva fina;
Férias;
Amor.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

A insustentável constância daquilo que chamamos ser ou estar


Assim ontem, assado hoje e no breu das próximas horas, não sei amanhã.
De cair o queixo a rapidez com que as coisas do mundo transformam a você e ao seu humor. Já nem se pode mais se dar o direito de programar um dia feliz para depois da meia noite, sabe-se lá que ventos soprarão contra ou a favor e, mesmo em extrema calmaria, pende-se a dúvida para o pavor das surpresas.
Contam-se em estalos de segundos o escurecer das nuvens que circundam por sobre nossas cabeças, hoje assim, daqui a muito pouquinho assado, medo e até algo próximo ao pânico nos rodeia frente a pequeniníssima possibilidade de mudança de tempo, tempo do outro, tempo do mundo, tempo de coisas das quais não nos ensinaram a ter o controle.
Hoje assim, quisera amanhã também, aí, de onde menos se espera disparam-se tiros e quilos de incompreensão, mal humores ou mesmo a simples vontade de tingir de formigas a toalha de seu piquenique.
Que dá medo, que medo que dá, ser feliz, dá medo.
Dil Sobrinho, assustado

quinta-feira, 23 de abril de 2009

E ai a máscara


Por um certo período, por motivos “diplomáticos” , me escondi atrás de um personagem que assinava minhas crônicas. O criei feminino e lhe batizei de Abnegada Abgail. Foi sem dúvida uma experiência inusitada e, por que não, deliciosa, encarnar uma suburbana alto astral e seus delírios diários.
Seguem alguns escritos “psicografados” a mim por uma tal Abgail.
Adilson

quarta-feira, 22 de abril de 2009

A velha e desbotada desculpa


Sempre tive paixão por carros pretos, homens altos, barbas por fazer e camisas pólo. Exatamente isso tudo aí era Jorge. Dentes brancos, peitão peludo, jeito meio grosseiro, aí, não teve jeito, paixão a primeira carona.
Não me lembro da marca do carro, mas me lembro de suas longas mãos indo e vindo no câmbio, uma fala mansa, jeans levemente desbotados e uma bota importada de Barretos que o fazia o meu Clint Eastwood.
Enamoramo-nos, buscava-me na repartição e eu, me atrasava na saída propositalmente pra que toda a peruada de minha seção me vissem entrando com aquele monumento no possante preto motor 8 cilindros, se bem que esse tanto de cilindros nunca fez muita diferença em nossas vidas. Jorge era meigo, carinhoso, divertido, atrapalhado e ainda tocava boleros em seu velho violão, só pra mim, ah ! Perfídia, não precisava de mais, eu não queria mais, adorava o seu jeito estranho e animal de puxar meus cabelos pela nuca e aproximar minha boca da sua, é certo que por vezes doía, mas nessa hora o que sempre importou foi o amor que vínhamos nutrindo um pelo outro.
Me levava a passeios românticos nos pedalinhos do lago, ele fazia uma força descomunal para me agradar, via todo o seu amor no suor que escorria e na vermelhidão do rosto após alguns quilômetros de pedaladas, éramos muito felizes.
Quis, com todo o direito, conhecer meus pais, marcamos pra um domingo, desde o acordar a casa era toda preparada pra ele, mamãe sugeriu colocarmos a mesa no quintal, papai gostou da idéia mas lembrou que Biscoito, nosso cão pequinês , provavelmente não daria sossego à visita, concordamos em ficar quietinhos dentro de casa e Biscoito bem alimentado e feliz do lado de fora pra evitar embaraços. O cardápio foi a parte mais difícil, resolvemos quase de última hora por um refogado de pescoço de peru que mamãe preparava magnificamente e que, provavelmente Jorge nunca teria comido e se esbaldaria.
Foi um sucesso, Jorge levantava papai à centímetros do chão, abraçando-o toda vez que juntos brindavam com uma cachaça mineira que não sei de onde apareceu, com mamãe dançou Altemar Dutra, até que as varizes de plantão de Dona Laíde não mais agüentaram, trouxe o violão e após nos enfartarmos de peru, tocou perfídia e me beijou longamente, me lembro daquele beijo até hoje, tinha o gosto do pudim da sobremesa. As vizinhas vieram conhecê-lo e teciam comentários muito positivos junto à mamãe, foi um sonho aquele domingo inesquecível.
Já se fazia um ano de nossa convivência harmoniosa, quando Jorge começou como que do nada a se afastar, se fazer distante, aparecer menos, e me beijar de forma mais casual, tentei renovar nosso caso, presenteei-lhe, dei tudo o que podia de mim, dei-me por completa, a distância, me parecia aumentar, percebi claramente que era o começo do fim.
Jorge desapareceu por exatos trinta dias, até que recebi no meu portão o carteiro com uma carta que trazia apenas o destinatário, percebi sua letra e a intenção de que ele não queria ser localizado. Tremi, temi, abri, era uma carta sim de despedida, sem uma real explicação de onde eu ou nós havíamos errado, ele estava me deixando, nos deixando e abrindo mão de todo o amor que eu sempre lhe devotei.
Ao final de sua carta, com sua letra rota e trêmula deixou uma breve nota ao pé da página:

__ Minha flor, é com grande e doloroso pesar que aqui termino com nosso sonho, mas acredite só o fiz por você, você merece coisa melhor !!!
Abnegada Abgail

Coroa é a sua avó!


Do que me consta, realmente nada a comemorar, ranzinza eu? Experimente ir perdendo o ar enquanto amarra os sapatos !
Essas datas são pra mim um horror, sempre me lembro que a tendência é só piorar, dizem que se ganha experiência, sim muita, até porque se faz necessário muita experiência para estar sempre fazendo a dieta certa, cuidando do maldito colesterol, e o coração ? Por enquanto vai bem obrigado. Varizes, artroses, reumatismos, gota, osteoporose, menopausa, libido em baixa, Deus ! Afasta de mim essas velinhas, esse maldito bolo e as irritantes línguas de sogra.
Não vou, me recuso a falar das... rugas, esse amontoado de pele sob meus olhos, quero demitir-me de mim, quero minha cara de volta, aquela lisinha, pele de pêssego, devolvam-me os cabelos ainda castanhos sem branquelos intrusos a me fazerem gastar fortunas em “vermelhos intensos acaju”. Comemorar o que ?
É um tal de aumenta isso, diminui aquilo, o corpo vai ficando em forma, forma de barril, não me atrevo a usar mais aquelas sainhas que já arrancaram assobios, não me vejo ouvindo vaias, não sou mais eu, esta não sou mais eu, mesmo que me chamem pelo mesmo nome e, que no maldito CPF esteja lá gravado a minha real identidade.
Não me chamem de senhora, não me dêem lugar no ônibus, não me passem a frente nas filas e não me digam, “___ Tia, você no alto de sua experiência! “...
Comemorar o que ? Ando achando a juventude tão banal, a moda longe do meu bom gosto, a música tão aquém de minhas bossas, a noite tão grande e cansativa, o vizinho um chato barulhento e os sobrinhos um porre, sinais do tempo ou da idade?
Devolvam-me o que já fui, mentira dizer que envelhecer é nobre, uma ova ! Ando tendo paciência pra passar horas com um livro na mão, mas me recuso a mudar de sala no chat da internet. Ando inventando pratos na cozinha, já não me apraz os fast foods. Comprei como por ímpeto uma camisola e meias de lã, por que não mais dormir sensualmente semi despida e com os pés descalços ?
O que há de bom em acordar sempre antes de todos, tratar dos passarinhos e fazer o café ?
O que há de bom em perceber que todos os mais bonitos e sensuais são muito novos pra mim?
O que há de bom em ir a reuniões escolares do ensino médio ? Agora da Faculdade, rsss
Não, nada a comemorar !
Me resta a canção:

Parabéns pra você,
por mais vida perdida,
já passastes da idade,
Se aposenta querida !
Abnegada Abgail

REVOLUÇÃO EM MIM


Em pessoa, a revolução nos observa, pelo espelho, em reflexo, pré eletrograma da alma, assim foi e assim será o início, o meio e o nunca acabar. Bah tchê, ou Guevara a espreita no aprendizado do amor. Amor cubano, e do mundo, Fidel, fiel, cercado de Cienfuegos e paixão. Eu e você no cume da Sierra Maestra, exilados de medo e envoltos pelo caliente amor que vai além do Caribe, vai além das mais possíveis imaginações, fantasia que se realizou e permanece sã, insana, perene, fecunda e infinita, até que dure.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

ABERTO PARA BALANÇO

Houve um tempo em que era quase que uma obrigação, a cada 365 dias corridos, sentar-me em local distante, de preferência aqueles em que o que nos cerca é o sossego, e fazer um balanço geral do ano que se passou.
Há tempos não me atenho a essa prática; anos vem e vão e eu indo e vindo junto, sem tempo, razão e nem vontade de ficar fazendo avaliações do que foi bom ou ruim no período compreendido entre a ressaca do Reveillon e a nova chegada de Papai Noel.
Hoje é quase 2009 e eu quase 50, então pensei em preencher mais uma branca folha com reminiscências dos mais de trezentos dias vividos em 2008.
Que critérios usar para a seleção de bom ou ruim, já que, segundo dito popular, tudo o que é escuro tem um lado claro ou tudo o que é leve pode vir a ganhar peso.
Estão aqui, quase na minha frente, atestados médicos, contas recheadas de multas, times que não foram campeões, crises financeiras particulares e a máquina de lavar roupa que se estraga pela enésima vez, até sonhos que não se realizaram estão bem perto, basta fechar os olhos. Estou vivo ainda e até penso que o criador me escolheu para testes de resistência, bobagem, como diria Polyana, há gentes muito pior.
O caso então é limpar a sujeira e lapidar, até se chegar às essências, quão diferente e estimulante é cada desafio, cada experiência nova e, claro, se é pra se dividir em períodos cronológicos, cada ano.
Foi um período de sofrimentos e estou só falando do ano que passou, como se a vida toda não tenha me oferecido, vez por outra, sofreres. Foi um período de renascimento, visitei a experiência de adoecer o corpo, visitei a sensação, muito estranha diga-se de passagem, de ter sobre o corpo nu, uma forte luz e estar entregue a doutores em feridas terrenas para que eles decidissem, com suas habilidades, se eu deveria ou não continuar o movimento de pernas que me levam as minhas escolhas.
Eram bons os profissionais e eu escolhi viver. Quanto às escolhas para os próximos sem número de dias que ainda quero mofar em intermináveis filas de pontos de ônibus, tenho pensado em fazer novas opções. Percebi que aqueles valores que o velho José, meu pai, tanto me falava, são necessários e vitais e o que me parecia até tão irreal acendeu dentro de mim como que tocando-me e vi a urgência de exercitar o simples; ando me cobrando tolerância e generosidade, quero pedir menos, ceder bem mais, me alimentar melhor e abandonar vícios. Ando ansioso por um mundo melhor e o que é melhor, fazer a minha parte nessa construção utópica. Me preocupa a quantas vai o meio ambiente, a qualidade de vida dos desapossados e toda as injustiças de um mundo altamente tecnológico, mas que não exercitam os valores do Seu Zezinho.
Tenho a quem amar, uns mais, outros menos, se é que amor tem pesos e medidas, não me faltam oportunidades de doar o que só eu tenho. É tempo de novas direções, tudo bem, demorei um pouco, mas ainda é tempo e nunca pode ser tarde pra ceder um lugar na fila ou dizer muito obrigado aos atendentes que me tratam respeitosamente de “patrão”; não é tarde pra amar àqueles que menos merecem: são os que mais precisam.
Vou dizer um versinho do Quintana na secretária eletrônica, soltar os passarinhos da gaiola, lamber a tampa do iogurte e saltar em poças d’água. Quero fazer rir quem por perto estiver, mexer mais os quadris e, segundo o mesmo Quintana, evitar recados, canudinhos de refrigerantes e mensagens off line, afinal, não há nada que substitua a comunicação direta e claro o prazer da troca de brilhos de olhares.

Adilson Sobrinho

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

A SONOLENTA DO TIETÊ


Já não sinto mais medo de São Paulo.
Desde muito pequeno me apavorava com a idéia de estar perdido entre aqueles enormes arranha-céus. Cidade louca né, o dobro de carros e avenidas que qualquer outra do Brasil, metrôs passando em desesperos tresloucados pelos nossos olhos, homens de terno sempre apressados, não se via calma naquele mundo veloz.
A minha imagem sempre foi televisiva e depreciativa, e tive medo, sempre evitando estar lá na paulicéia desvairada. Mas o destino não me poupou de ver e enfrentar de perto o meu pavor. Em uma viagem noturna em ônibus pouco confortável fui chegando perto do meu grande recalque, estava indo sim ao encontro de Lu, o meu grande e eterno amor.
O motivo era nobre e justo, mas o medo era constante em todo o decorrer de uma viagem com roncos que não eram os meus, os vizinhos pareciam não estar indo pra guilhotina como eu assim me sentia. A manhã se aproximou e adentramos a capital, tudo me pareceu muito calmo para a grande metrópole, pensei em Lu, me acalmei, desejei, já na rodoviária um bom descanso ao nosso motorista e pisei pela primeira vez no solo bandeirante por natureza.
Não vi garoa, e embolado em uma confusão de ombros, procurava por ela, lugar marcado tínhamos mas o destino novamente me fez vê-la como uma fada, subindo lentamente ao ritmo da escada rolante de encontro ao que seria o nosso primeiro e fatal contato. Nos conhecíamos pelas vozes ao telefone ou contatos internéticos, e algumas fotos é claro.
Como em ascensão ela veio chegando, não me viu em um primeiro instante, caminhei alguns passos ao seu lado, e à sua primeira percepção lhe acordei da inércia com um simples e tímido bom dia. Ela me fez abraçar, em seus tantos centímetros a mais que eu, me envolveu gostosamente como um grande afago. Nos falamos nervosamente e procuramos um café, afinal merecíamos.
A amei desde aquele instante, naquele minuto amei, amei São Paulo, seus ritmos apressados me soavam como música, sua imagem apavorante até então, fez-se quadro, não vi São Paulo, não vi os mesmos homens de ternos que me aterrorizavam, sei que passaram por mim, não vi a Sé, a Lapa, a Mooca, o Bexiga, Jabaquara...
Meus olhos não viam, eles sonhavam frente à imagem sonolenta e linda de Lu no Terminal Tietê. Inevitavelmente nos beijamos e, de olhos fechados, com meus lábios colados ao dela, vi São Paulo com o coração, vi que a felicidade não escolhe lugar, ela não marca encontros, a felicidade vem de escada rolante ou elevador ao nosso encontro e às vezes tem nome; Lu é o nome da minha.
Hoje vejo São Paulo ao fundo, no primeiro plano vejo o meu amor. O filme da velha máquina não deixa dúvidas..................... A cidade é linda !

ACONTECÊNCIAS

Quando por mim eu me dei,
você já sabia meu riso,
você já sabia meu choro,
já até sabia meu cheiro.

Hoje, já sabes de minha vida,
do meu coração e alma,
você já me sabe inteiro.

Já conhece meus temperos,
minhas raivas e paixões.
Antecipa-se aos meu sonhos,
me acompanha em devaneios,
dividindo ilusões.

Já sabe o meu e-mail,
minhas senhas e atalhos,
isso tudinho de cor,
aumenta meus megabytes
sempre que necessário,
pra eu funcionar melhor.

Me acalma, me irrita,
me perturba, me orienta
nessa aventura louca;
por vezes me ama,
por vezes me odeia e,
por vezes, me beija a boca.

Sabe onde guardo o açúcar ,
o pó e as minhas dores
e, após me servir um café,
se veste pra me agradar,
com todas as minhas cores.

Me abraça por telefone,
já sabe de cor o meu nome,
o número do meu sapato,
a cor do meu cobertor.

E quando a voz me some,
e alguma dor me consome;
me diz só palavras belas,
palavras tais como aquelas,
que sempre falam de amor.

Quando sou só alegria,
com risos me compartilha,
o doce dom de viver,
Eu peco, não retribuo,
sou seco, sou inseguro,
mas não penso em lhe perder.

Varamos um ano de acertos,
encaixes e tentativas,
na busca de amar melhor;
Temos conseguido muito,
tenho eu crescido muito,
já sei suas dores de cor.

Não posso negar agora,
ela sabe e tem tudo de mim,
Tem o homem, tem a alma,
tem meu infinito, e... fim.

A MINHA MUSA

A Musa que eu amo é linda e pra virar flor só precisa dos meus olhos;
A Musa que eu amo é doce, mais que balinhas originais da Alemanha;
A Musa que eu amo é deusa; nem preciso de epifanias, sinto-a;
A Musa que eu amo é bruxa boa, me enfeitiçou um tanto assim;
A Musa que eu amo é mulher quando é hora de ser mulher;
A Musa que eu amo é menina sem hora marcada;
A Musa que eu amo é romântica e nunca me disse isso, precisa ?
A Musa que eu amo faz poesias e a sua grande obra é nosso amor;
A Musa que eu amo é enorme, grande, mas sabe como se encaixar no meu pequeno colo;
A Musa que eu amo é mãe e ainda sabe ser pai, que coisa;
A Musa que eu amo tem Alberto, João e Paula; os outros são só sobrinhos;
A Musa que eu amo me ensinou o Caio e ele me traduziu Lucia;
A Musa que eu amo é uma bela flor, é flor bela, diva , encantadora.
A Musa que eu amo é também Mário, Pessoa, Caeiro, Drummond, Adélia.
É toda a poesia reunida;
A Musa que eu amo faz longas viagens diárias pra mim,
imaginando, em viagens imaginárias, a viagem real;
A Musa que eu amo me ama também;
A Musa que eu amo é pop, é hippie, é punk, yuppie e bossa nova.
Até já foi uma brasa, mora ?
A Musa que eu amo tem cheiro que diariamente me embriaga; orgasmos de organza;
A Musa, aquela que eu amo, é sedutora, maliciosa e sensual,
embora isso agora não venha ao caso, afinal, isso é pessoal e intransferível;
A Musa que eu amo é luz, dói nos olhos até que se acostume, é claro;
A Musa que eu amo é caixa de lápis de cor, se aponta e aponta sempre
pras melhores cores da vida;
A minha Musa parece seresta com violões em noites de Bom Jesus;
A minha Musa parece e-mails esperados, carteiros sorridentes e curiosos,
e o trim sonoro e feliz dos telefones.
A minha Musa parece um pedido realizado, uma promessa por pagar,um livro bom de ler, uma conta paga e cigarros sublimes após o sexo.
Eu queria que minha musa fosse...................... muito mais tarde.
Estou amor, sou amor e o serei até quando ?
Até antes de meu coração explodir e contaminar a todos que ainda acreditam no simples embaraçar de pernas.

A CADA DIA MAIS...




... amar tem de ser sinônimo de leveza, de paz, muita paz e principalmente de compreensão. Não quero pirar, corro de mais ansiedades. Te amo, estranho soaria se eu dissesse o contrário e quero tê-la a todos os segundos, minutos e horas do meu dia. Na impossibilidade, meu coração deve sorrir, afinal és dona de minha alma e na sua ausência canto a música que mais gosto, escrevo seu nome pela casa, estou pronto pra chuvas e trovoadas; para o sol, mesmo que seja noite. Acabo não tendo mais tempo e preocupação alguma, ser feliz me consome.

A MÚSICA QUE OUÇO


No exercício diário do ouvir, sons me chegam e invadem a minha imaginação.
Imagino Jobim tocando trompas angelicais enquanto vem chegando suavemente em meus ouvidos um cheiro forte de jazz em uma jam dos anos 30.
A música que ouço, entra blues e em um processo de liquidificação do espírito, se faz mambo, tango ou merengue.
Djavan sopra suave, passarinhando Nucci, que claudicantando me encanta, eu , por minha vez, apenas ouço e me renovo, sempre que a música troca a roupa de minha alma.
Sons de cigarra si, si, si, Zizi me chama, clama e reclama: há também o tempo de não ser só formiga, quem sabe Moska, Paulinho pulando por entre vagões, vagos antes do som, agora pleno de luz musical.
Nós por exemplo somos soul, alma negra, rock’n roll, boca aberta de stones que cantam , desejando ser Gil que embaianando Soweto, se fez Marley regado a dendê.
De Holanda a Catolé do Rocha ouço Chicos, que com ciência ainda batucam nos mangues de pernambuco.
Todas as músicas são boas, desde que realmente o sejam. Todos os sons se fazem musicais, desde que os ouvidos mudem de lugar e façam casa no espírito.
A música que ouço transcende os tímpanos e eriça os pelos em átmos de sensibilidade, transformando pau e corda em despertadores de emoção, vozes rasgadas em líricas celestiais e plugando amperes ao mais profundo dos sentires da alma.
Os dias passam e eu vou sampleando em uma colagem bem arranjada, pedaços de sons a pedaços de vida, fazendo-me pleno, inteiro e em um intertexto sartreano, a minha essência musical, teimosamente, precede a minha existência.

MAR DO TEMPO PERDIDO

O mundo está triste desde terça-feira passada. Passada a época dos caranguejos no lodo e do ruído insano da roda gigante quase vizinha. Me deu vontade de escrever tal como escreveria Garcia Marques sobre sua também insana Martinica.
O winzip condensado de tristezas reunidas ao longo do ano, pesou na nuca e ombros, enrijeceu todo a alma, existem massagens para tal. Se tristezas fossem frutos que se apodrecem e caem do “eu árvore”, hoje sou só folhas, com sorte, ainda não se fez inverno e eu seria alguns galhos vazios.
Não há do que se queixar, são as doidivanas dores mundanas, eu e mais um planeta inteiro as temos. O que realmente me traz pavor é que essas também doem em você, e, como dói o saber das dores que doem em você.
Não fosse sua candura, longe estaria o nosso amor, me traz um medo o saber que seus ombros possam ser mais rotos que os ombros do mundo...
Quem sabe não seria bom sairmos de biquínis roxos do mar do tempo perdido em choros e buscar espaços de voltar à vida. Quem sabe, para fins de dezembro, possamos estar nas águas do tesão absoluto de só e plenamente estar vivo ?
Por que não sou Garcia Marques para, fantasiosa e absurdamente, solucionar as coisas de lágrimas alheias ? Por exemplo, me mudar para o seu quintal, virar árvore e te prover de frutos tão doces que só fazem rir ? Exceto no inverno, em que você sempre se ajeita em mantas de amor próprio.
No inverno, eu despejaria os apodrecidos frutos, tomaria um Chateau qualquer e, pacientemente, aguardaria o momento certo de novamente lhe adoçar.
Por fim, o que nos resta é estarmos, e estando, compreender sempre que só faltam 6 meses e 11 dias de qualquer ano para a nossa morte, que tal viver ?
Um grande beijo, durma em paz, eu cá comigo lhe garanto, continuo produzindo, com o seu carinho, água e atenção, pra você os mais belos frutos e madeixas.

PRIMEIRO TRATADO SOBRE O OBSCURO (ou como diria Zagalo)

Tudo é obscuro, tudo é um grande enigma, aliás o que estou fazendo por aqui ? Meio que de passagem, vou tocando, vou levando. Meu grande enigma é a minha existência ! Quem determinou que eu havia de ser flamengo roxo ? Por que voto em Lula, gosto de cerveja, futebol e cachaça ? Obscuro é amar, obscuro é viver, nunca se sabe o que vem após a próxima esquina ou após o próximo beijo. Me arrisco, me atrevo, ousar lutar, ousar vencer ! Irrita-me a chamada telefônica que sempre traz vozes infantis que não se concluem, são mistérios, fazendo-me sentir 24 dias por hora, vigiado, enigmas. Será essa a nossa razão do estar aqui ? Pagando contas, ouvindo rocks, ingerindo tabacos e comendo maçãs argentinas ??? Essa força que me move, não me dá razões, enigma não sou eu, é a vida e, esta eu quero sempre e muito, resta saber se a recíproca é verdadeira... Me apresento e peço suas bençãos. Não sou do além, existo, longe de tudo que possa querer me anular, não me faço obscuro, me apresento, apareço, aguerrido, guerreiro... Mas ainda não sei bem o que faço por essa dimensão, para o momento, ser feliz me basta. Por vezes escrevo, por vezes me solto em letras, por vezes me faço enigma, charme puro, afinal não quero me fazer passar por algo inatingível, mesmo que as vezes necessite passar em brancas nuvens. O obscuro da vida me fascina, mas confesso, me mete medo e, nessa busca de todas as razões, me perco em mim, é que vezenquando o eterno me parece embaraçoso, mas é pra lá que estou indo é pra lá que me dirijo, e queira o eterno ou não, ele vai ter de me engolir. Em tempo: o número 13 não diz nada para mim. Enigmas...

COMO ERA GOSTOSO O NOSSO ALEMÃO

Houve uma, duas ou três vezes em que ouvi histórias de um outro mundo, de um outro tempo, a tosca calçada capistrana que nos servia de auditório, foi testemunha de passagens inesquecivelmente saudosas.
Havia rumores de que aquele gigante loiro chegando aos dois metros, teria sido um terrível nazista, comedor de criancinhas, (mas isso não era coisa de comunista ?). O processo de aproximação se fez lento e gradativo, éramos moleques de rua, jurando nada temer, mas ele nos causava uma certa inquietação, porém, suas maçãs rosadas no rosto, foram as reais responsáveis pela nossa simpatia e pela aproximação. Sabíamos ser de um país que atendia pelo nome de Alemanha, o que para nós parecia uma outra galáxia, só isso bastava para exacerbar nossa curiosidade.
Não era Fritz, Otto, Hans ou qualquer outros nomes alemães que conhecíamos assistindo filmes de guerra no velho cinema da cidade, atendia por um nome relativamente doce para um homenzarrão daquele, “Alec”, e o senhor Alec não conseguiu impor o seu epíteto àquela cidade, onde entre curiosidades, respeito e medo, todos só se referiam a ele como o “Alemão”.
Era raro sua presença pelas ruas, quando das quermesses ele se reservava em doar algumas prendas para as barraquinhas e trancava-se dentro de um enorme casarão parecendo querer evitar o vozerio festeiro das nossas tão divertidas festas. Bom brasileiro que somos, descobrimos ser o portão de Alec um perfeito gol para nossas “peladas” vespertinas.
Tinha realmente o formato de uma belo travessão com dois pilares nos servindo de traves. Ele nunca parecia se importar com o alvoroço incontrolável da molecada bem embaixo de sua janela, mas perdemos muitas bolas, apenas pelo medo de pedir a tão soturno morador que as devolvesse ao jogo.
Era um sábado iluminado pelo sempre lustroso sol das Minas Gerais e o jogo fazia-se esfuziante, eu em um chute, de quem nunca nasceu para brilhar dentro das quatro linhas, arremessei a bola para onde ela menos devia ter sido endereçada, barulhos de vidro quebrando-se seguidos de silêncio geral, nenhum menino se atreveu a manter-se a menos de 100 metros do desastre, devidamente escondidos aguardávamos algum sinal do alemão, de súbito, rompe o portão a imensa figura das bochechas rosadas, trazendo na mão um saco de linhagem apinhado de bolas e uma enorme botija de água, não sabíamos o que se passava pela cabeça de Alec, me enchi de coragem e decidi que iria enfrentá-lo no intuito de me desculpar pelo prejuízo da janela, me aproximei e notei que ele não tirou os olhos de mim e, antes que eu pronunciasse alguma palavra ele me ofereceu um copo de alumínio muito brilhante o qual segurei, até para não contrariá-lo e tomei, como que ingerisse um merecido veneno.
Outros meninos foram se aproximando e sorvendo da mesma caneca que eu, e, em uma química inexplicável, o seu olhar nos arrebatou todo o medo, ouvimos pela primeira a sua rouca voz, estranha, sua fala era carregada de ‘erres’ .
Alguns conselhos sobre pontaria no chute e algumas histórias sobre seu país e o futebol, do qual parecia ser fã. Devolveu-nos as bolas e voltou para a assombrada casa. A partir de então, todas as tardes, após a peleja que agora o tinha como platéia, tomávamos de sua água e sentávamos ao seu redor para ouvir as mais belas histórias, de outros mundos, de outras gentes, de outra galáxia.
Ainda hoje, com uns bons anos passados, ainda ouço em minhas lembranças, a sua rouca voz, cheinha de rrrrrrrrrrrrrrrr iniciando mais uma história:
__ ERRA UMA VEZ....

O VIOLONCELLO DE ALICE

Alice tinha um violoncello, no qual arpejava acordes belíssimos e de muito fino gosto, não era uma virtuose mas mantinha uma relação muito próxima com o seu instrumento e a música que ele produzia.
À medida que o tempo, ou seja lá qualquer outra força da natureza, mudava, mudavam também os sons de seu violoncello. Em dias frios e tristes, suas cordas pareciam bambear-se e seu canto era choroso, uma espécie de lamento.
Alice, nestes dias, corria-lhe o arco, com ímpeto, força e rapidez, tentando fazê-lo produzir o mesmo som dos dias claros. Era apenas um violoncello, mas parecia ter uma grande vontade própria, por mais que Alice tentasse, o seu som se fazia como o tempo, como o dia, frio e triste, ela por fim o compreendia e não lhe exigia folias em momentos um tanto fúnebres.
Em dias de sol, mesmo que triste agora estivesse Alice, o violoncello entoava sorridente e em alto e bom som, acordes do mais puro alegro, mais que andante. Mais que alegreto, parecia mesmo nem se importar com a morbidez estampada nos movimentos do arco de sua parceira, cantava por si, e ao final da primeira peça, entre alegros e alegretos, alegrava Alice.
Alice o cobria de bons tratos, entre óleos para madeiras nobres e um dedicado trocar de cordas, ela o mantinha sempre muito bem guardado em local seco e arejado e sempre muito bem vestido com a capa original de fábrica, pareciam mesmo se entender, mesmo com as mudanças de temperatura, de tons e humores, eles definitivamente se completavam. Eram Alice o o seu violoncello.
Certa feita, Alice seria alvo de uma platéia exigente e requintada que pagaria para se devanear aos sons produzidos pela dança do arco nas cordas tesas do belo violoncello, ela a condutora, ele o conduzido, uma sintonia perfeita, simbiose etérea, magia em que se completavam com a consciência de que um não aconteceria sem o outro, o tempo, ora o tempo, não há dilúvio que nos impeça de brilhar e, qual não foi a sua surpresa ao perceber uma tarde fria, triste, no dia em que seria o dia da grande prova publica de sua doce cumplicidade e talento junto àquele artefato de madeira.
Minutos antes, na solidão da coxia, eles se entreolharam, percebeu-se no ar que algo não sairia como se esperava, não mais havia tempo nem motivos para cancelamentos. Subiu ao palco e, frente ao alarido das palmas, ela o abraçou como que lhe dando força e carinho e, a platéia presente, atônita, jamais se esquecerá de tão belo, pungente e apaixonado concerto.Um belo violoncello, mesmo temperamental, soube escolher a hora.
Alice não mais existe, não se tem mais noticias do violoncello. Essas histórias ainda acontecem, não há mais quem as conte, podem estar escondidas em algum canto de uma preciosa orquestra, ou mesmo acontecendo na casa ao lado, mas não são maioria os que vêem e contam com os olhos e vozes que vem do coração.

ANTAGONIAS


Eu Campos, você Caeiro,
eu Lenine, você Ênia,
eu graça, você riso,
eu luz, você 'iluminada',
eu Sartre, você Werneck Sodré,
eu escada pra trocar lâmpadas, você ponta dos pés,
eu cobertor, você guarda-chuvas,
eu 'havaianas', você alpercatas,
eu trigo, você pão
eu um, você três ( e como são lindos ),
eu Folha, você Globo,
eu café, você mangas,
eu poeta, você musa,
eu letra, você música,
eu rouco, você seda,
eu linho, você linha,
eu violões, você ouvidos,
eu cuecas, você calcinhas,
eu terra, você água,
eu prestobarba, você ob,
eu homem, você mulher,
eu bonito, você mais
Eu pãe, você também,
eu supermercado, você também,
eu contas a pagar, você também,
eu giz, você idem,
eu quis... você também,
eu tentei... você também,
eu cedi... você também,
eu amei... você também,
eu estava enganado...você também,
eu solidão...você... longe.

Colaboradores


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